Se música triste fosse feita para ser ouvida na tristeza, nenhuma delas seria boa de verdade, porque a dor é um silêncio tão profundo que faz qualquer barulho soar intrusivo e condenado mesmo. De dor aguda não nasce música, só da tristeza, do banzo, da melancolia e primos mais brandos, anteriores ou posteriores.

E é por isso que a gente aprecia músicas tristes quando está contente. Elas dão um pesinho à felicidade, um agouro estranhamente gostoso, um negócio de saber que contentamento não dura e tudo bem, porque o que está vivo dói e amanhã pode não ter, mas pelo menos hoje tem.

Música triste só  funciona de verdade quando a gente é feliz e sabe. Quando momento está certo pra você saber que ele é muito bom e dura pouco. Quando a gente está deitado na grama embaixo do sol, abraçados, e entra Dawn Penn cantando “You don’t love me and I know now”.

No dia em que você não me amar mais não vai ter Dawn, porque a tristeza dela não vai mais ser apreciável em todas as suas notas. Vai ter virado real e vai ter virado silêncio.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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