Um mês depois de eu ter me mudado para um desses prédios com três andares e duas rachaduras por parede, uma velhinha de sorriso pequeno me abordou nas escadas. Ela perguntava sobre o livro que eu tinha debaixo do braço. O autor? Não conhecia. Os escritores que eu mais gostava? Ela nunca ouvira falar de nenhum, mesmo sendo eles tão famosos. Pois queria conhece-los! Não sabia muito bem ler com os olhos, mas com os ouvidos, muito. Então me contratou:

– Venha ler na minha porta estes livros aí. Te espero às 6 da tarde.

Achei graça e disse que eu não era um leitor tão bom assim. Mas ela fez um gesto de quem não se importava, de quem esperaria. Apoiou-se no corrimão e subiu.

E no dia seguinte, e no outro, também no outro, pelo encontro marcado, pelo trecho marcado em alguma página, subi as mesmas escadas, do primeiro até o terceiro andar. Ficava em pé na sua porta aberta, lendo feito aluno frente à classe. A velhinha aplaudia, pedia pra anotar, reclamava da minha magreza e me trazia um pedaço de bolo fresco. Assim veio o beiju pela leitura de uma ficção de jornal, uma ambrosia por um capítulo de um livro, uma cocada por um poema. Pagava com sua deliciosa culinária o que eu pegava emprestado de escritores do mundo todo.

– Eu me pergunto, meu filho – chegou ela uma noite, interrompendo minha leitura, suspirando de olhos marejados -, por quantos livros será que eu ainda vivo?

A velhinha me pegou de surpresa. Fiquei com o dedo na página sem saber responder. Mas ao olhar bem no fundo dos olhos dela e enxergar o tanto de vida que lá estava, as minhas próprias palavras saíram de minha boca:

– Dez… dez que ainda nem começaram a escrever.

                                                                                                                                                  Saulo Dourado escreve, quinzenalmente, às segundas-feiras. 

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