Da vila do Boqueirão, distrito de Riacho de Santana, Bahia, onde vivia meu tio-avô Berlim, até Belo Horizonte, onde fomos buscar seu corpo, semana passada, são mais de mil quilômetros de distância e quase um dia de viagem de ônibus. Enfrentar exitosamente esse trajeto, sozinho e de mala a tiracolo, é um feito para um homem octogenário (talvez nonagenário: ele não sabia sua idade ao certo). A afilhada com quem morava, uma adolescente que cuidava dos afazeres domésticos e lhe preparava o repasto, foi quem anunciou o sumiço e quem, dois dias depois, recebeu um telefonema informando que o padrinho fora encontrado morto em um hotelzinho próximo à rodoviária de BH. O detalhe omitido à jovem, mas que acabei descobrindo: o tal hotel era um muquifo usado pelas prostitutas da área. Ao que parece, o velho Berlim dos Bregas, como era conhecido no vilarejo, morreu fazendo jus à alcunha.

Não me vá achar que o epíteto do cabra denuncia a sua índole e resume sua história. É certo que tio Berlim não se casou e que, se teve prole, essa nunca se lhe apresentou. É certo, igualmente, que tinha fama de ser o maior conhecedor das zonas de meretrício da Bahia e que fez fama nessas. (Dizem que foi o único homem a quem a bela Artemísia, do Brega de Tota Catinga, em Jequié, mostrou os pés. Que, no Brega de Degera, em Macaúbas, duas funcionárias da casa se navalharam por ele. E que salvou mais de vinte pessoas no naufrágio do lendário Vapor dos Prazeres, que navegava o São Francisco levando passageiros que, raramente, dormiam em uma mesma cabine duas noites seguidas.) Todavia, não — o objetivo-mor de sua peregrinação lupanária não era tanto o cafuné relax das moças da vida, o amor instantâneo das mundanas, e sim a procura por alguém. O caderninho de notas que encontrei em sua sacola não deixa dúvida quanto a isso e quanto ao que fazia na capital mineira. Tio Berlim, a vida inteira, buscou a Alemanha.

Tio Berlim foi adotado. A história de sua chegada à minha família é, também, a história da perda dos pais biológicos e de Alemanha, sua irmã caçula. O pai, um lavrador, tirou os nomes dos filhos de um dos monólogos que o coronel para quem trabalhava tinha por gosto dar, junto com a pinga, aos seus homens, toda noite, no alpendre de casa. Mais tarde, o pai repetia essas palestras à mulher, adaptando-as com o vocabulário de que dispunha, completando as lacunas da compreensão com a imaginação que tinha, no que transformou a capitulação da Alemanha e o cerco a Berlim promovido pela entente em uma tragédia de invasão a terras de coronéis e de chacina provocada pelas garruchas dos tenentes. Causo triste, que incitou a solidariedade do casal, identificado com o desejo mas não com a coragem dos protagonistas — seriam cangaceiros Berlim e Alemanha? —, e que legou aos filhos que eles ainda nem tinham a sina de carregarem as homenagens póstumas.

Por causa de promessa da mãe, todos os anos a família ia em romaria a Bom Jesus da Lapa, viajando no primeiro pau-de-arara que parasse para eles à beira da federal. Berlim guardava a lembrança de que, antes do acidente, um desconhecido comentava das escavações à picareta feitas nas montanhas de pedra por entre as quais a estrada passava e do perigo da Curva do Vento, que se aproximava, mas ele e Alemanha só prestavam atenção na rapadura que o estranho roía. Ao fim de algum tempo, o homem percebeu o olhar pidão das crianças e ofereceu um naco a cada. Antes de Berlim ter a chance de levar o doce à boca — o ruído, o impulso, as pancadas. A dor e o sangue. O choro.

Meu bisavô, que era comerciante vende-tudo na região, encontrou o garoto na casa paroquial de Caetité, dois meses depois, começando a recuperar-se da fratura na perna, que o deixara acamado. Estava aos cuidados do padre, que o acolhera por falta de quem o fizesse e que, desejando livrar-se do órfão o mais rápido possível, apelou à cristandade do caixeiro, que ele sabia ter casa ampla, cheia de crianças. O reverendo louvou a quietude e obediência do rapaz e assegurou que esse faria boa labuta no comércio do amigo. Em seguida, explicou-lhe as circunstâncias que o teriam trazido até ali:

— Uma tragédia!  — disse o padre. — Perdeu a família toda num acidente: o pai, a mãe, uma irmã. Quer dizer, ele diz que viu a irmãzinha viva, estatelada, e que, embora ele estivesse preso às ferragens, não tirou o olho dela, até começarem a levar os feridos nos carros de boi. Diz que um homem que conversava com eles a apanhou e rompeu na frente da comitiva. Ele gritou que não a levasse, mas ninguém lhe deu ouvidos. Diz que demoraram para conseguir movê-lo a si e que, quando chegou aqui, perguntou da irmã a todos, mas ninguém se lembrava de tê-la visto, viva ou morta, só ou acompanhada. Cá pra nós, acho que a menina caiu no abismo da Curva do Vento, e que a situação toda provocou algum tipo de catatonia no rapaz, mas ele não arreda o pé e insiste que está certo do que viu e que vai atrás da irmã. Para piorar, algum maledicente lhe disse que, se foi homem adulto e sozinho que a levou, o destino da menina seria… seria… você sabe… as tais casas da vida. Sim, um horror. É, eu sei que acontece; de toda sorte, agora não há mais o que se fazer. Não, eu não acho que ele vá fugir e, se fugir, dou-lhe minha palavra que nenhuma responsabilidade o acometerá, amigo: você terá feito o que pôde para ajudar um necessitado. Isso são modos de criança de lidar com a perda. Creio que não adianta bater de frente com o garoto nessa birra; a única que tem, que no mais é menino muito bom: quieto, obediente. Uma hora ele esquece essa história da irmã.

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Breno Fernandes escreve às terças

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