Tinha uma luz de fim de tarde linda entrando pelas janelas quando João Pedro se sentava para escrever e era por isso que ele não conseguia. Pegava o celular pra tirar fotos dos padrões que a luz fazia nas paredes, na poltrona nova (será que vai manchar?) naquele canto da sala. Voltava e sentava. Ia para a varanda respirar o ar iluminado do fim da tarde e não saía mais. Ficava ali fazendo qualquer coisa até que já fosse muito tarde pra qualquer outra.

Semanas depois, sem produzir, a casa bangunçada e sem espaço no celular para tanta foto de retângulo de luz na parede, decidiu fechar as janelas e persianas, a porta da varanda e o resto para poder se concentrar. Comprou lâmpadas novas, fez um café e escreveu por três horas, pagou contas pela internet, tirou o lixo de dias e colocou os lençóis na máquina.

No segundo dia a luz de fim de tarde começou a aparecer às 13h, depois do almoço, logo antes de ele fechar as janelas. Passou a almoçar em frente da TV, para seguir direto no trabalho. No terceiro dia, o fim de tarde veio às 8 da manhã e João Pedro não escreveu nada.

Na quinta-feira nem sequer anoiteceu. João Pedro dormiu na varanda.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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