Você já parou para pensar o que mudaria na sua vida, caso você não tivesse o nome que tem?

Eu já. E não, não acredito em numerologia ou significado de nomes como determinante de traços da personalidade. Meu devaneio tem origem em outro caso do anedotário familiar onde sou personagem principal.

Em meio aos preparativos para a minha chegada neste vale de lágrimas, como sói acontecer na espera de todo bebê, a discussão mais acalorada haveria de ser acerca da escolha do nome. Dado o alto grau de convencimento – e tagarelice – de minha tia, as outras opções foram abandonadas e a decisão tomada: A família Rolim teria um Danilo a partir daquele janeiro.

Meu pai discordou, mas manteve-se plácido. No retorno do hospital, chegam visitas para Danilo Rolim, cai o umbigo, passam alguns dias e é hora do registro civil de nascimento.

Secretamente meu genitor ansiava homenagear famoso autor russo de livros de química analítica [era professor da matéria], Alexeev, e revelou esse plano apenas à última hora ao escrivão. Surgiu então um problema: Em plena ditadura militar no Brasil, não era permitido nomes estrangeiros – menos ainda de origem russa.  A abreviação foi solução simples e imediata. Acabava assim a história de Danilo Rolim, o mancebo que nasceu, mas pouco existiu.

E finalmente, o que significa esse exórdio todo, ALEX ROLIM?

Caros, não fosse a manobra biltre de meu pai, pensada e executada à revelia das mulheres da família, talvez não apenas essa crônica deixasse de existir, mas todas as outras do Purgatório tagueadas por este escriba. Sim, porque se é improvável que a simples mudança de prenome alterasse de forma significativa os rumos e escolhas da minha vida, talvez causasse desvio suficiente para que trilhasse um caminho paralelo ao atual.

Complicou? Nem tanto. Já ouviu falar de teoria do caos? E efeito borboleta?  É por aí mesmo.

Eu não teria feito a prova da segunda etapa do vestibular de 2001 na mesma sala da Faculdade de Economia, já que a arrumação era por ordem alfabética. E talvez não contasse com um fiscal tão simpático que aceitou acordar-me após uma hora de soneca – prestei o vestibular pernoitado por uma farra na noite anterior –para que pudesse lavar o rosto e encarar meu ingrato desafio. E talvez não conseguisse usar meu estado ébrio a favor da interpretação de texto que me garantiu 92% de aproveitamento na prova de Língua Portuguesa e Literatura, e me assegurou a última das sessenta vagas na Faculdade de Comunicação daquele ano.  O resto é recorrência, evolução temporal, interação e história.

Portanto meus caros, essa discussão de “neimin raites” da Fonte Nova não é inócua, nem estéril. Para mim pouco importa marketing, arrecadação de quem explora o equipamento ou desoneração da máquina do Estado. Preocupa-me mais o fim da rede trapezoidal, tipo futebol de botão – que permite não apenas comemorar o mesmo gol inúmeras vezes antes de a bola aninhar-se na rede, como acompanhar por mais tempo a tristeza do goleiro em buscá-la – e se haverá venda de rolete de cana.

A mudança de nome é salutar, pois desvincula esse novo estádio [cada vez que alguém fala em ARENA um suricato é devorado no deserto de Kalahari] do imortal Octávio Mangabeira, e dos craques que já desfilaram técnica, elegância e futebol vistoso noutros tempos, que não voltam mais.

O nome em si, se não determina nem caracteriza o novo estádio, deixa bem claro os rumos de aqui e agora – num Estado onde o Governador já vendeu a própria barba para marca de lâminas de barbear – e mantém a velha Fonte Nova, e seu cognome, resguardada nos jardins idílicos da nossa reminiscência afetiva.

Até porque para abrigar um time que tem FAHEL, HÉLDER, ZÉ ROBERTO e SOUZA, uma ARENA com nome de CERVEJARIA é fina ironia. É quase obsceno de tão apropriado.

Uma escolha tão feliz quanto a que meu pai fez naquele cartório. Desagradem-se hoje, mas no futuro vocês concordarão. Eu sei bem como é isso.

Da…Alex Rolim escreve às quintas

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