Minha avó sempre pagava uma moeda e fazia um elogio pelos desenhos que eu entregava. Casa com chaminé e fumaça, um sol em cima de nuvem, gente como palito, experiências de olhos fechados, e tanto fazia, era a idêntica remuneração. Meu pai me cedia uma hora a mais pro playground a todo gol que eu marcava nos torneios do colégio, e, como quase nunca acontecia, ele se deixou considerar também passes decisivos e bolas na trave. Minha mãe vinha com uma fita de videogame pelo boletim que me fluía bem da boca, ao anunciar. Às vezes, uma entonação resolvia.

É, que isso confirme suas acusações, sou mimado doído sim, me acostumei à recompensa imediata de tudo que faço. Mudaria apenas recebendo pra mudar. E enquanto não, te exijo lábios, coxas, seios, cabelos, vestido primavera, um sorriso de quem me dispensaria se quisesse mas não quer, uma aura pra me atingir à queima-roupa de qualquer parte do mundo, de qualquer mundo, por cada poema que rabisco no muro de sua casa.

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Ô, amor, seria uma delícia passar mais uns dias menos dias contigo, umas trocas totais de célula, ficar com a mão cheia de pintinhas, enrugada e tudo, mas é que, sabe, não vejo jeito. Não consigo querer você tanto, quando há tanto o que se querer. Você, meu bem, já é aquele que só pára quieto por no máximo quinze minutos, que tem todo um olhar explícito quando esconde o rancor, que tem acessos de ciúmes previsíveis, assim como são previsíveis os seus gestos na hora de uma carícia, que dança estranho quando nem é para dançar. Você, meu dengo, já é exatamente o que eu sei, enquanto um outro é o talvez. E no talvez, um infinito de possibilidades, e no infinito de possibilidades, tudo o que eu desejo. Ou não. Provavelmente não, para que sempre se faça a chegada de um outro outro.

Desculpa, benzinho, desculpa. Não por eu te deixar assim, assim deixado, porque disso você logo esquece, mas por insistir em te dizer o que te faz cuspir, esmurrar muro e que em mim vem latente: de eterno, o amor só tem o cinismo.

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Foi um ar-condicionado que parou, a amplitude de um grande som só entendida no click da ausência. Fiz um “uhh” em coro porque o silêncio brusco é pior do que o teto se o teto quisesse parar, e caísse em cima, espatifasse. Olhei para o agasalho querendo inventar algum outro sentido em me proteger, em me cuidar tanto. Ter cuidado com o quê? Não que não haja mais perigo, apenas não importa que um perigo venha enfim me buscar. Mas ele, o barulho, era algo que estava em tudo e eu não distinguia, de tão apegados nas coisas, apegados, o barulho e eu, em paralelo. Ele me envolvia pra eu me sentir sempre em movimento no meu estar. E, por um descuido, pensei que tudo o que envolvia já era eu.

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Eu não me apaixono por ninguém, é só alguém que se aproveita da paixão que tenho sempre.

Saulo Dourado escreve às segundas, quinzenalmente