Hoje é Primeiro de Abril. Mentira.

Essa sorte não tive: o dia de minha crônica caiu neste trinta e um insólito de março. Acho inclusive, me desculpe você que aniversaria hoje ou em algum trinta e um de mês, mas acho trinta e um o número mais feio entre todos para ser um dia – ganha até do detestável dezessete. Dia trinta e um só serve para atrasar o salário de entrar na conta, atrasar o ano novo de entrar, atrasar, atrasar, atrasar. Não deveria haver dia trinta e um.

Mas não será tampouco porque hoje ainda não é Primeiro de Abril que deixarei de registrar o que tinha pensado em falar dessa efeméride, aliás para mim a mais fascinante do calendário nacional.

Pensando melhor, bem que eu poderia, é verdade, guardar essa minha ideia para outro ano futuro, ou deixar para falar do Primeiro de Abril quando a ilustre data dignar-se a cair num domingo, que é meu dia de publicar a crônica, como se finalmente o destino estivesse me pedindo opinião sobre o assunto. Mas vejo no calendário que isso só vai acontecer em 2015, e daqui até lá sabe-se lá se ainda vivo estarei; e se estiver, se estarei escrevendo; e se estiver, se ainda será aos domingos, pois nisso tudo só quem manda é Deus e o patrão.

Ademais, guardar essa minha ideia (esse meu pleito!) em relação ao Primeiro de Abril para depois parece-me coisa aziaga, um atestado de que não acredito que nosso Brasil possa dar a volta por cima em dois anos redentores, um malíssimo auspício para os rumos da nação – e maldição é coisa de que a pobre anda menos precisando por esses tempos. E outra: em 2015 já vai ter passado a Copa, e então todas as nossas mazelas já terão sido sanadas – e sobrearei eu, reles croniqueiro fraquinho das ideias, micado com minha piada na mão.

Pois então, o que queria dizer é o seguinte: todo ano, quando chega o Dia das Mães, aparece sempre alguém para dizer que Dia das Mães, na verdade, é todo dia. Vem o Dia do Índio, e tome-lhe gente a dizer que o Dia do Índio é todo dia. Dia da Consciência Negra, e ah, mas deveria ser todo dia. Igualmente ocorre com o Dia do Trabalhador, com o Dia da Mulher, o Dia da Vó, Dia do Livro, do Meio Ambiente, da Liberdade de Imprensa… todo dia era para ser dia de tudo, afinal de tudo se precisa – do que já há e do que ainda falta – todo santo dia.

Acho bom.

Só acho graça que num país que tem mais de 200 (ou, sei lá, de 500) anos e ainda analfabetos aos milhões; que ainda discrimina gente por causa de opção sexual, classe social, preferência divinal, cor epitelial e mais o escambau; que ainda concentra privilégios, direitos e poder, mas peleja para distribuir um trisquinho de renda e oportunidades; que deseja infame a volta da inflação só para vender notícia; que quer ter criadagem doméstica e por isso pagar uma miséria; que elege seus legisladores uma torrente de pilantras a cada quatro anos – entre os quais, oh cereja do bolo!, um homofóbico racista para cuidar de seus direitos humanos… enfim: só acho graça que num país onde isso tudo grassa, não apareça ninguém para bradar que se reconheça de uma vez por todas nossa única e inconteste verdade nacional: Dia da Mentira é todo dia.

 Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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