Veículo de comunicação sério, moderno, transparente e arrojado, O Purgatório vem a público anunciar seu voto para vereador nas próximas eleições municipais. Em respeito ao leitor, e para evitar qualquer acusação de proselistismo subliminar em tempos de campanha eleitoral, vimos a público registrar nosso apoio a Deraldo Estofador, quadro indubitavelmente preparado para assumir a vereança nesta Cidade da Bahia. Pelos motivos que expomos a seguir.

Conheço Deraldo – e agora passo a falar em primeira pessoa, porque afinal voto bom é voto em quem a gente conhece de perto – de um serviço que certa feita ele prestou para minha mãe. Precisada de trocar o forro do sofá, ela anotou o telefone de Deraldo Estofador ao passar em frente à sua oficina, perto de casa, ali na beira da comunidade da Língua da Vaca, defronte ao IML Nina Rodrigues.

Telefonou-lhe e, no sábado de manhã, ele apareceu em casa. Entrou, examinou o sofá, sentou-se nele. E cruzou as pernas. E ali ficou, cômodo, assistindo a TV, feito íntimo. A televisão dava uma dessas competições de ginástica artística em que moçoilas coxudas dão das suas piruetas. Minha mãe então perguntou-lhe quais as opções de tecido disponíveis e recebeu das mãos de Deraldo um pequeno portfolio com retalhos. Folheou, sentiu-lhes a textura, “esse aqui ou este outro, seu Deraldo?” O homem estava vidrado na televisão. “Seu Deraldo?” Como que abduzido pelas pernas das ginastas. “Hã? Ah, qualquer um que a senhora escolher aí está bom, eu arranjo.”

Era tamanha a urgência de minha mãe em trocar o diabo do estofado, que Deraldo saiu de casa naquele dia tendo-lhe convencido a reformar não apenas o sofá como todas as seis cadeiras da casa, mais a poltrona-do-papai. Minha pobre mãe sucumbiu ante o precinho imbatível que Deraldo calculou em indecifráveis rabiscos de caneta bic nas bordas de um rasgo de papel mal-amanhado. “Mando o carreto vir buscar tudo segunda-feira. Entrego em no máximo dez dias”, prometeu.

Segunda de manhã, na hora marcada, cadê que o freteiro aparece? Minha mãe telefona para cobrar. “Já está chegando, minha senhora, marquei com ele. Olhe, anote esse número aqui, e ligue aí a senhora mesmo para ele, porque eu estou sem crédito no celular.” Humpf. Dezoito chamadas depois, o tal homem do frete atende, dizendo que está na ilha de Itaparica – e que só iria dar mesmo para buscar os móveis à tarde.

Passam-se pois os dez dias, e nada. Mais cinco dias, mais nada. Minha mãe telefona para cobrar, diz que quer dar festa em casa, que meus convidados vão sentar onde, pelo amor de deus, Seu Deraldo; e Seu Deraldo nem aí, desconversa, diz que o tecido escolhido estava em falta, e que vai demorar para chegar e que não-sei-mais-o-quê. Só coisa de vinte dias depois é que ele aparece para a entrega. A poltrona ficou boa; as cadeiras até que ficaram bonitinhas, muito embora as pernas tenham continuado bambas; mas o forro do sofá chegou com belo d’um rasgão no braço. Minha mãe se irrita. Resfolega. E o homem leva de volta o sofá para ajustar o serviço mal-feito.

Note, caro leitor, que os atributos demonstrados até aqui já credenciariam Deraldo – e com sobras – para o posto de edil de nosso município. Descaso, atraso, esquecimento, promessas não cumpridas, negligência: e precisa ter mais alguma coisa para assumir uma cadeira na Casa do Povo?

Pois precisa. Precisa ter cara-de-pau.

Isso Deraldo demonstraria quando, muitos dias depois, reaparecesse para a entrega final do sofá. Como chovesse muito, o estofador entrou com a picape na garagem do prédio. Quem descera para receber a peça dessa vez foi meu pai. Antes da entrega propriamente dita, Deraldo confessa: “Senhor, meu carro ficou sem gasolina. O senhor não tem como tirar um litrinho da de seu carro para mim não?” Meu pai, atônito mas mui cordial, nega. E repreende o homem por ter entrado sem gasolina na garagem dos outros.

Mas se compadece e, por fim, se oferece para levar o estofador a um posto de gasolina próximo, e que lá ele comprasse a bendita. “Então vamos. Já trouxe até a vasilha”, diz Deraldo, sacando uma lata de leite em pó surrada da cangalha da picape. Quando o estofador se afasta um pouco, meu pai cochicha com o assistente que viera junto para ajudar na entrega: “É, meu velho, com um chefe desses, você está lenhado, não é não?” Ao que o rapaz responde: “Ah, o senhor nem me fale. Essa bagunça aí é todo dia. Guento mais não, vou pedir minhas contas.”

Enchida a lata de gasolina, na volta, Deraldo ainda pergunta a meu pai se (assim, por acaso) minha mãe não lhe tinha mandado entregar um cheque para cobrir a despesa extra que ele tivera para levar o sofá de novo e costurar uma capa para recobrir o rasgo no braç… “Olhe, Seu Deraldo: ela não mandou cheque nenhum não. Aliás, o senhor deveria era dar graças a Deus por ter sido eu a vir receber esse sofá. Porque minha mulher está com tanta raiva do senhor que certamente lhe trucidaria se estivesse aqui…”

“É, né? Então… deixa para lá, Deus dá mais”, respondeu Seu Deraldo. Deixou o sofá, pôs o combustível no tanque e foi-se embora. E nunca mais havíamos tido notícia dele, até depararmos – qual grata surpresa! – com um cartaz dando conta de que ele saiu candidato pelo PV, número 43042.

Esse, a gente conhece; desse, a gente já sabe o que esperar. Estamos contigo, Deraldo. Estamos contigo.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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