A memória humana é traiçoeira. Não, não é uma hipótese, uma possibilidade, um rumor, uma tendência. É um axioma. Uma verdade inexpugnável, um princípio em si. Diria Palhares, o cunhado canalha [como se todos não o fossem]: É batata! Com firma reconhecida, carimbo oficial e rubrica em três vias reafirmo: A memória humana é um traiçoeiro poço sem fundo – o referido é verdade e dou fé.

Constato tal verdade com a autoridade de quem possui uma capacidade mnemônica privilegiada, destas que costumam classificar como memória fotográfica. Admito que falho bastante em relação a nomes e por vezes atrapalho datas, porém sou capaz de recordar com exatidão a cor do laço no cabelo da garota mais bonita da 6ª série no primeiro dia de aula, a música que mais tocava na quermese paroquiana de 92, o sabor travoso das carambolas no inverno da enchente do Rio Seco, ou a fragância almiscarada daquela paixão nas férias de 98 em Valença [ah, o olor fugaz do sexo das meninas, né Caê?!].

Os caminhos tortuosos da memória a ciência ainda não desvendou, e não me atreveria a discorrer sobre tal mistério. Um par de olhos, entretanto, atiçou-me ao tema. E já que Kansas sumiu do mapa, sigamos a tortuosa estrada dos tijolos amarelos.

Pausa. Flashback.

Eram olhos brilhantes, expressivos em contraste com a feição frágil, o jeito tímido. Quase pareciam saltar, e eram vívidos mesmo quando o rosto estava ensimesmado Quantas vezes me desnudou ao fitar-me durante o jogo do siso? Nunca venci, pois não conseguia conter a felicidade de, por alguns instantes, possuir a exclusiva atenção através da irís castanho-clara. Uma cor em perfeita harmonia com as sardas das bochechas rosadas.

Despausa. Avança 20 anos.

Reencontro casualmente o par de olhos. Amores platônicos são singulares pela capacidade de, sem motivo racional, fazer o coração vir à boca num impulso adolescente – ainda que o corpo denuncie uma idade mais avançada. Refeito do baque súbito, passo a observar atentamente o rosto da Vênus que inspirou alguns tolos poemas juvenis. Ali, percebo que a memória me traiu.

Não, os anos não foram atrozes com o rosto angelical da menina interiorana. Segue com uma beleza plácida, ainda que não me agrade como a duas décadas atrás – questão de gosto que apura com o tempo, adorava tubaína e hoje prefiro Gin – e não possui expressões faciais marcadas pelo tempo. Está casada e isso também reprime o encantamento, mas definitivamente os anos a tornaram uma bela mulher.

O diabo é que as charmosas sardas sumiram, o canino superior está montado e os olhos… Ah amigos, recorrerei a versos da época, entoados por famosa dupla do sertanejo pré-Telosiano:

“… Onde estão aqueles olhos / Que eu trago na imaginação…”

A imaginação em diabólico arranjo com a memória me pregou uma peça. Castanhos, azuis, verdes, negros… pouco importa! O que a mente não apenas apagou, mas photoshopou nas minhas lembranças é que os apaixonantes olhos sofriam de ESTRABISMO CONVERGENTE. Não precisa ir ao Google. Vou traduzir pro populacho: A guria era zarolha. E de uma vesguice aguda tipo Luan Santana.

A traiçoeira memória editou minhas lembranças ou a empolgação juvenil não deu importância à falta de paralelismo nos encantadores olhos? Que a nossa cabeça possui esses aplicativos que colocam filtros vintage e retrô nas memórias é um fato, mas desprezar tão evidente desvio só pode ser bug! Senti-me aviltado, sabotado pelo próprio intelecto. Ferido no ego, antes orgulhoso pela exatidão das lembranças.

Então amigos, curtam suas lembranças sem nunca confrontá-las com a realidade. A memória sofre reconfiguração contínua e tendemos a idealizar momentos e situações conforme nossos anseios – que nem sempre correspondem ao ocorrido.

Mas se a Guanabara pode ser bela e banguela [né, Caê?] porque não pode meu antigo amor platônico ser estrábico e egrégio?

Pois quis o destino que minha Capitu fosse vesga. Olhar mais oblíquo, garanto, jamais existirá.

Alex Rolim escreve aos sábados

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