Primeiro a vermelha, depois a amarela, a verde, a marrom, a azul, a rosa e preta. Na ordem da caída na mesa de pano verde, eu ia destrinchando o que caía na teia da minha virada de madrugada. Soubesse que ia fechar logo a birosca, teria pedido a Bigode pra derrubar logo toda a garrafa de Rocinha. Aí tive que ficar bicando de pouquinho pra dar tempo da rodada acabar. Sinuca é a vida, Boneco.

Tinha um taco empenado que só eu pegava. Um jeito de bater com ele que matava sempre de primeira a primeira, a vermelha. Quando derrubava a vermelha eu pensava no dia que enterrei o meu coração no quintal de Tassina, menina de se jogar fora porque do que adiantava tudo aquilo se se remexia toda pra quem tava no topo da disputa da sinuca? Miserável. Quem matasse logo a vermelha e encaçapasse logo em seguida a amarelinha, a número dois, já ganhava cinquenta mil pontos no esquema de Tassina. Mas a um e a dois só davam três pontos mesmo, só que dava direito a arriscar em outra de graça, sem pagar os pontos da bola se errasse. Tassina sabia da força de sair ganhando. O balé da mesa Tassina conhecia. Se picou com Boi Tadico, miserável no taco. Nunca perdeu na mesa, nunca perdeu a menina.

Aí a amarela caía e eu pensava em espumante. Tomei espumante, isso mesmo, es-pu-man-te, quando resolvi comemorar a vitória do Avante em grande estilo. O Avante era o melhor time de pelada das quebrada. Claro, dizendo isso não posso deixar de dizer que eu era o centrefor. Centrefor era uma parada que meu pai falava, era centroavante da época dele. Rita – como a mulher entra no esquema pra dificultar, né? – Rita disse que pra comemorar a goleada a gente tinha que comprar espumante e isso e aquilo. Comprei acho que umas oito garrafa, mas só bebi uma. Me deu uma dor de cabeça filha-da-puta e abandonei o copo nos primeiros goles. Acho que foi alergia a coisa cara, gosto mesmo é de banhado a ouro, bijuteira, Pitu, Pitu-Cola, gosto também daquela garrafinha que a gente chama aqui de bombinha, cachaça pura, êita miserê.

Aí na mesa agora tem a verde a marrom pra matar em seguida uma da outra. E eu viajando em sanduíche de carne assada com brócolis. Olhe que mistura do cacete, carne assada com brócolis, num pão! Na birosca do Bigode só sai de comer moela com pimenta malagueta e farinha numa vasilha com uma tampinha que fica presa por um fio plástico. É boa, a moela é boa, mas eu tava mesmo a fim de meter um pão com carne assada e brócolis pra dentro, agora, agorinha mesmo. Mas se só tem moela, vai moela mesmo. Peço a Bigode, ele faz um muxoxo e eu cuspo no canto da parede.

A azul da mesa não me diz porra nenhuma. A azul fica ali, no meio da mesa quando jogo começa. É a mais fácil de matar porque as duas caçapas do meio são bem receptivas à azul. Você corta, corta o máximo, tira um fino máximo, que ela vai cair no meio. Ou então bate do lado de cá pra ela pegar na borracha e ir cair do outro lado. Bola azul, bola cinco, tá no bico, tá na manha, que nem quando você acerta a cantada e sabe que a figura já caiu no seu papinho de que a lua e o vento frio e tal e coisa. É o fino da bossa, acho que foi isso que ouvi, mas nem sei se cabe nesse pensamento meu, boneco.

Aí eu matei já cinco, sem nem errar, tô de barão. Sei que a rosa deve lembrar algo de frutinha, coisa assim, mas a rosa, a que vem em seguida, me derrete, cara. Num vou fugir disso, não. Num ri, não, porque me derrete mesmo, mexe com meu lado de menino mole, eu tô aqui mesmo é dizendo das minhas verdades, né, não?, então eu digo na maior, Boneco, a rosa me lembra algodão doce. Se você rir de novo eu te entupo, não me faça fazer siricutico com seus dentes postiços, cabeça-de-nós-todos. Você pode não gostar de algodão-doce porque nunca foi em circo pra ver palhaço, não foi em parque de diversão pra brincar no carro bate-bate, nunca teve dinheiro pra isso, né, não? Algodão doce tem gosto de brincadeira, Boneco, brincadeira sem preocupação, não essa porra de Sinuca que a gente bota dinheiro e se perder, perdeu a noite e a certeza. Perder a certeza é uma merda grande.

Tá vendo ela aí? A preta, a derradeira? Cê pergunta como é que é com a preta eu te digo Fudeu, filhote. É quando eu erro, a gente erra, que nem a vida, Boneco. A gente bota tudo pra dentro e erra na melhor da hora. Sinuca é a vida, molecão. Quer ver?

Quando estiquei o braço pra bater, senti o suor escorrer da testa e pingar na mesa verde.

Carmezim escreve às quartas-feiras

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