“Tudo o que sei sobre moral e as obrigações do homem devo ao que aprendi no Racing Universitaire de Argel”. A frase do escritor e goleiro franco-argelino Albert Camus dá a real dimensão do que o ludopédio pode representar na formação do caráter humano.

Assim como Camus, também tive uma pequena carreira de jogador amador. Defendi com honradez as cores do Tapera Futebol Clube, do UJC Futebol Clube e do Real Xibiatagem Athletic Club. Dos 12 aos 25 anos empenhei o meu vigor físico em gloriosos embates que punham em jogo muito mais que taças, pequenas apostas e zombaria aos perdedores. Aprendi que futebol não chega a ser uma questão e vida e morte. E é muito mais que isso.

Abandonei a prática futebolista por motivos menos nobres que os do filósofo. Não tive uma moléstia tão grave como a tuberculose, nem qualquer lesão impeditiva. Simplesmente me entreguei de corpo e alma aos encantos da vida boêmia e hoje não atuo sequer como peladeiro – melhor para o futebol.

Sem a prática, dedico-me à teoria. Além das obrigações usuais de um torcedor – comprar o modelo mais novo da camisa e visitar regularmente a cancha – procuro conforto pra alma consumindo outros suportes ligados ao esporte bretão. Por isso me considerei um afortunado quando, na última semana, após empreender longa procura por sebos finalmente encontrei um exemplar do livro “Popó: O craque do povo”.

Apolinário Santana foi o primeiro jogador do futebol baiano a ter um status próximo ao que hoje se convencionou chamar de craque. Atuou nas décadas de 20 e 30, antes do profissionalismo total do esporte. Assim como Camus, foi um amador por excelência. Amador no sentido lato do termo: amava o que fazia. Tanto que jogou em 11 clubes diferentes da capital, numa época em que transferências entre agremiações eram pouco usuais.

E trocava de clube não por dinheiro ou maior fama. Algumas vezes era afastado por “indisciplina tática” – naquela época não havia treinadores, mas aos capitães era concedido o direito de queixar-se à diretoria – e a tática está aí até hoje a justificar incompetências e indisciplinas. Outras vezes, trocava de camisa apenas pelo desafio de encarar nova empreitada, a ponto de enxertar equipes em alguns torneios apenas para poder jogar sem o fardo da obrigação.

Amava tanto o que fazia que se tornou um jogador coringa. Defendia e atacava com a mesma eficiência, podia ser centroavante numa peleja e aparecer para reforçar a zaga no outro embate. Entre os muitos feitos comenta-se sobre um gol chutado do meio campo, no torneio baiano de 1923, o primeiro do gênero a ser registrado.

E era tão respeitado e admirado que apitou um Ba-Vi amistoso em 2 de julho de 1934. Isto porque, após desastrosa atuação na primeira etapa, o juiz Vivaldo Tavares foi agredido violentamente pelo jogador Bitonho – reserva do Bahia – e não teve condições de retornar para a etapa final. Popó assumiu o apito e conduziu o match sem alardeio. Bitonho, envergonhado pela atitude, suicidou-se tomando cianureto de potássio no dia seguinte.

Qual outro jogador poderia orgulhar-se de ter seu nome citado em um romance de Jorge Amado? Ou de ser o ídolo de chuteiras de Irmã Dulce? Só mesmo Popó, centro-médio campeão pelo Ypiranga em 1925*, um craque do tempo em que os jogadores carregavam apelidos da infância e embalavam versos e cantigas:

“Chuta, chuta, Popó chuta

Chuta por favor

Mela,mela,mela, mela**

Mela e lá vai gol”

“Não há fogueira sem brasa

Não há mato sem cipó,

Não há partida animada

Quando não joga Popó”

Era um futebol romântico com valores que não poderiam ser monetarizados. Resgatar essa aura – como no filme “Heleno” – é lembrar-nos da essência que alimenta esse esporte, algo que todo jogador amador renova quando calça as chuteiras ou luvas.

E é o que une o goleiro Camus, o centro médio Popó e esse medíocre ex-zagueiro que vos escreve.

*Escrete campeão: Budeti, Arlindo, Silvino; Gregório, Popó, Badaró; Sandoval, Henrique, Vivi, Lago e Mário.

** Expressão da época. Significa “Dribla”.

Alex Rolim escreve aos sábados

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