Porque minha inspiração anda anêmica e já estou feriado, compartilho com vocês uma carta que o poeta Manoel de Barros, 95, escreveu para José Castello, em resposta a um pedido seu para que falasse sobre o “presente”, essa tarefa impossível. São duas partes. A primeira, uma espécie de introdução, e a segunda, em que desresponde à pergunta do amigo:

Campo Grande, fevereiro de 2012

Caro amigo Castello

No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Pois minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver.

Como dizer! Eu vi um lagar com olhar de árvore. Pura inocência que o absurdo faz. Pura inocência para desver o certo. Eu queria era mudar a feição das coisas. Assim como desnaturar pela palavra. Ver as coxas rosadas da Manhã na beira do rio era gosto. A gente andava perdido nas Origens.

As palavras não tinham comportamento. Era sempre um Tratado de Descoisas que eu queria fazer. São alguns dos fragmentos que estou aqui mandando a você como respostas às suas sábias perguntas. Repito que sempre andei pelas origens sem me conhecer. Talvez sirva esta espécie de carta para explicar o divino absurdo e Fernando Pessoa para explicar as raízes da inocência. Assim: eu vi uma frondosa formiga ajoelhada no adro!

Mas não havia nem adro nem origens. Grande abraço e obrigado por tudo.

Seu amigo

Manoel de Barros

1.

Quero repetir uma coisa. É que o absurdo é divino porque o absurdo infantiliza as palavras – como seja: Eu vi um sapo com olhar de garça. Não infantilizei a beleza das garças! Para bem compreender a voz das águas, das árvores, das pedras, precisamos estudar ignoranças – coisa assim: eu vi a bunda do vento e a bunda só tinha o lado de fora. A gente não estudara as coisas por dentro delas. A gente fosse ignorantes! Mais tarde eu quis saber o que o silêncio sabe sobre a solidão das pedras. Ninguém nada sabia. Só um homem abraçou a ignorança.

A gente mais tarde via os caracóis enrolados em suas palavras. Ele se tornara um vate porque suas palavras se enrolavam nas lesmas dos caracóis! As lesmas queriam dormir nas palavras do vate. Agora, dentro da solidão das minhas palavras andam caracóis que fazem confusão comigo. Criaram raízes em minhas palavras e andamos juntos nestas origens.

Agora a gente só queria saber o formato severo dos silêncios. Agora eu vivo por gosto de engolir a linguagem e não porque gosto de compreender. O mundo eu só quero desver.

Sempre fui mais tido como um parvo! Porque eu queria mudar a feição das coisas com palavras. Assim, uma vez eu vi a tarde correndo atrás de um cachorro. A tarde não pegou o cachorro. Mas eu vi de visão. As águas irrompiam de minadouros para mim. Irrompiam como vernos e como as sementes do verbo.

Naquelas cavernas das origens havia Profetas, tontos, crianças e poetas. Eu morava no ente. Eu bem ouvi o tonto dizer: Uma brisa me garça. Achei que algum futuro meu poderia ter esse título (Uma brisa me garça). É pura harmonia letral.

Manoel de Barros

Tatiana Mendonça escreve (às vezes) às sextas

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