Como a chuva que cai de supetão e só se sabe dela quando o barulho das gotas brinca nas árvores do quintal, o muro de madeira apareceu.  Distava sete passos da porta dos fundos de casa. Era inquestionável.  Nem mãe nem pai souberam dizer do que se tratava. Eu corri pra janela, encostei a barriga no parapeito gelado e vi que o circo tinha se instalado no campo de barro usado para as disputas de bola no final da tarde.

A nossa casa tinha ficado dentro do limites do circo. Éramos filhos adotados da nova família.

Dentro da área do muro ficavam os grandes caminhões, as jaulas, os furgões, trailers. Quando nada, fiquei amigo da contorcionista e da trapezista. Eram irmãs gêmeas. Resultado: me apaixonei em dobro. Amor de criança. Por um lado torcia para que uma não desse um nó nas pernas e ficasse assim pra sempre. Do outro, passei a acreditar nas cordas e nas redes com uma fé inabalável.

O que virou uma fotografia daquela invasão circense na minha cabeça, no entanto, não foi o amor súbito. Foi o mata-cachorro.

Desde quando percebeu a instalação do circo – depois da minha rápida percepção de curioso – meu pai me chamou na sala, com uma expressão preocupada. Quando ficava preocupado, o velho tinha um tique no canto da boca, parecia que estava tirando resto de comida do dente do fundo. Disse: não temos dinheiro para o circo e você sabe disso. Tome cuidado com o mata-cachorro.

Não dormi.

No dia da estréia, passei até creme rinse no cabelo.  Quer dizer, minha mãe gritou batendo na porta, pra quê essa demora, menino? Já disse que você não vai ao circo. Adiantei o creme rinse.  Não sabia ela que tínhamos uma trama, eu e os outros dois meninos que ficaram com as casas dentro dos muros de madeira. Entraríamos por debaixo da lona, sem pagar, é claro. Qual foi a nossa, quer dizer, a minha desgraça.

Corríamos no entorno da imensa lona, avaliando um buraco pra metermos a cabeça, depois os ombros, sacudir as pernas no barro e ultrapassarmos a barreira para a fantasia. Os parceiros já tinham passado. Eu guardava as costas deles. Quando colei minha barriga no barro, senti a mão grudando nos meus fundilhos e me puxando para fora e para cima.

Era o mata-cachorro.

Eu perguntei, já sabendo a resposta, você é o mata-cachorro? Ele tinha botas pretas, roupas sujas, suspensórios, barba por fazer. Parecia o mal em pessoa.  Pôs-me no chão. Antigamente, ele disse, éramos contratados para dar um jeito nos cachorros que deixavam os leões alucinados. Os cães vinham porque o cheiro dos leões os atraía. Hoje em dia lidamos com as crianças e os safados que tentam entrar sem pagar.

Chorei, gritei, ele só me segurava pela camiseta pra que eu não fugisse. E você ainda mata cachorros, Senhor Mata-cachorro? Depende, ele balbuciou. Cachorros que têm algum motivo nobre para vir ver o circo, a gente deixa entrar. Você tem? Tenho, tenho, me adiantei. Minha casa ficou dentro da vila do circo, pra dentro do muro! Acho que tenho direito! O mata-cachorro negou com a cabeça. Te dou mais uma chance, ele disse. Diane e Diana, resmunguei.

Ele ajeitou minha camisa, me virou, limpou o barro dos meus fundilhos, e me colocou pra entrar pela porta da frente. As apresentações de contorcionismo e do trapézio ainda não tinham começado.

Carmezim escreve às quartas-feiras

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