A tempestade chegou destruindo a casa onde me abrigava do mundo. E assim nenhum lugar mais serve. Virei parente dos náufragos das enchentes que a despeito de nunca ter nada de vez perdem tudo.

Se pudesse ter anotado todos os dias num caderno pautado vermelho, como se guardasse o cheiro, para lembrar e seguir vivendo. E escreveria nas últimas linhas: discussões inofensivas podem tomar os piores rumos. E depois apagaria com a borracha branca para registrar outra verdade de maior valia: coisa mais triste que existe é assistir a um amor morrendo.

Como naquele filme em que a mulher dança em frente a uma loja enquanto o homem toca uma violinha e alguns anos depois não sabem mais o que fazer um do outro.

Porque você disse que eu tinha um porto, e eu acreditei, e agora sou só um barco à deriva no meio do mar onde todo o resto é mar, surpresa de que uma ausência possa se fazer tão constante. Sua falta encontrou um meio de morar em mim pra sempre.

E por isso esqueço que nossas vidas se separaram e fico por minuto te imaginando aparecer em qualquer canto onde por coincidência eu esteja, mas aí seria só capítulo de novela. Clarice que amo tanto e você admitiu gostar só para que eu não ficasse muito triste tem aquela frase que diz “piedade é ser filho de alguém ou de alguma coisa – mas ser o mundo é a crueldade”. O que está mais que provado em A Marcha dos Pinguins, que ensina mais sobre a existência que todos os livros budistas reunidos. Não tem ninguém reparando com eles são tão fofos que não deveriam nunca morrer de frio e de fome. É só a vida acontecendo.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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