Marie Colvin é uma dessas pessoas sobre que algum dia se fará um filme biográfico bem formulaico que, com sorte, terá alguém como Helen Mirren no papel principal. Porque Colvin foi uma das melhores correspondentes de guerra que já existiram; porque viveu situações impressionantes tentando entrar em (e sair de) zonas de conflito como Chechênia, Iraque, Afeganistão, Timor Leste, Palestina e Bálcãs.

Porque ajudou a salvar 1.500 refugiados da Indonésia no Timor ao lado de outra jornalista e de um enviado da ONU (que queria deixar o país com outros repórteres e foi forçado, por elas, a ficar); porque conseguiu entrar em uma zona de milícias durante a guerra civil do Sri Lanka e, ao sair de lá, foi atingida no olho direito por uma granada de mão. Porque depois disso ela usava um tapa-olho preto que a transformou na Catalina Creel do bem.

Porque ela teve um casamento que terminou em divórcio e outro que terminou em suicídio. Porque nunca quis ter filhos e, sim, cobrir guerras. Porque ela velejava. A vida de Colvin teve tantos elementos cinematográficos que chega a ser um clichê. Talvez Angelina Jolie a acabe interpretando.

Conheci seu trabalho recentemente, há cerca de um ano, e fui para a internet recuperar o tempo perdido. Mas a verdade é que a morte de Marie Colvin nesta quarta-feira, na Síria, me entristeceu bastante.

Depois que passamos da síndrome de Tintim, nós encaramos a profissão com muito mais cinismo e alguma frustração. É mais fácil fazer viagens aventurescas a trabalho sendo roadie de banda de garagem. Mas se achar que ser jornalista significaria resolver grandes mistérios na fronteira do perigo era uma ilusão, ela tampouco mascarava necessariamente uma profissão desprovida de importância, escrúpulos ou dignidade, como volta e meia pensamos depois de alguns anos acompanhando a pequenez dos meios de comunicação brasileiros.

O negócio é que nem todo jornalista precisa (nem deve, nem consegue) ser aventureiro. Nem todos eles precisam cobrir guerras e nem todas as batalhas valem a pena. Mas em algum lugar existe gente que gosta de contar estas histórias como se deve e sabe da importância que elas tem. E em algum lugar existe gente que confia nestas pessoas o suficiente para apoiá-las nessa tarefa.

Em um dos inúmeros obituários que Colvin ganhou, o da New Yorker, diz-se que em seu último depoimento de Homs para a CNN ela afirmou, após descrever e mostrar a situação das pessoas onde estava, que era uma “mentira completa que o governo sírio está atacando terroristas. O Exército está simplesmente bombardeando uma cidade cheia de civis famintos”. Ela estava lá e viu. E disse claramente – coisa rara no jornalismo, mesmo o que vai para as trincheiras – que era mentira, como bem notou o apresentador, Anderson Cooper.

Em outro dos obituários, falava-se que a mãe de Colvin recebeu jornalistas em casa pra dizer que ela “morreu fazendo o que mais gostava” e eu não pude deixar de me lembrar da maneira cretina como as empresas de comunicação nacionais tentaram transformar casos de negligência como o de Tim Lopes e o de Gelson Domingos da Silva, cinegrafista morto no Alemão, em casos de heroísmo e sacrifício jornalístico, entrevistando seus familiares que, naturalmente, diziam que eles amavam a profissão.

A diferença, no entanto, é bem grande. Marie Colvin corria riscos mais conscientes e tinha um sistema mais criterioso de orientação de seus empregadores (ela decidiu ficar na Síria depois que seu editor a pediu que saísse do país, por exemplo). E, muito além disso, está a relevância das imagens e informações que ela se arriscava para conseguir.

Dois anos antes de morrer, no discurso em um evento que homenageava jornalistas mortos em conflitos, Colvin disse que, além de ter em mente que a missão era reportar os horrores da guerra com precisão e sem preconceitos (uma lembrança muito importante), é sempre preciso se perguntar se o nível de risco vale a história. “O que é bravura e o que é bravata?”, questionou.

Neste momento, acho que ela fazia um jornalismo heróico mais pelo que se atrevia a dizer do que pelo que tinha coragem de fazer. Não o tipo de jornalismo que põe profissionais em risco levianamente, mas, sim, o tipo que faz as perguntas importantes e dá às coisas o nome que elas realmente tem.

Eu não queria ter a vida de Marie Colvin, percebi no fim das contas. Mas queria ser ela. Na parede do meu coração de jornalista que não sabe se está fazendo algo útil consigo mesma, já há uma foto sua de tapa-olho, é claro. O pôster de Tintim já estava dobrado e guardado em seu devido lugar.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.

Anúncios