– Por que você tá tão parada aí, Marina?

Sentada na areia da praia, Marina tinha os olhos fixados no mar. Ele, criança que nem ela, estava encucado com a quietude.

– Acho que você devia tá era brincando, tem tanta areia aqui pra fazer desenho, castelo, sereia. Se você quiser, faço uma sereia pra você, você pode deitar e eu te cubro. Nem demora muito. Coça um pouco, mas depois você toma banho de mar.

– Não quero.

– Então picolé de limão, capelinha, peço a minha mãe. Não pode a pessoa vir pra praia e não brincar. Nem deixar de tomar picolé. Sabe outra coisa? Comer acarajé também é bom demais e eu sei que você gosta.

Marina mergulhava a própria alegria num buraco. Martin não sabia como era ruim aquela coisa que estava dentro dela, comendo a vontade de brincar, de tomar banho de mar, de chupar picolé de limão.

– Só agora, depois de tanto tempo eu aqui, Martin, você vem pra me chamar? Cê tá todo vermelho, mesmo com protetor. É de tanto brincar, é?

Ela evitou, desde quando chegou à praia de carona no carro da mãe de Martin, virar-se numa visão panorâmica do local, buscando os passos de Martin quando ele a deixou para juntar os baldes e brinquedos com outros meninos. E menina.

– Você não quer nada?

– Quero.

– Diga, diga pra gente poder ir brincar logo com todo mundo.

– Quero que você compre dois picolés de limão, depois venha chupar aqui comigo, depois vamos catar conchinha, depois você faz a sereia, depois a gente tira a areia na água, depois…

– Vixe! Isso tudo?

– É o que eu queria. E também falar com sua mãe pra ela botar aquele guarda-chuva grandão aberto pra gente ficar debaixo porque o sol tá forte.

– O sol não tá forte nada, Marina.

– Eu acho que tá. Cê tá com o rosto todo vermelho, Martin.

– Mas não tá ardendo.

– Mas tá ficando feio.

Mentira, ela sabia.

– Feio? Êita, então não quero ficar feio.

– Pra isso é bom banho de mar. Vamos na água?

– Vamos, rapidinho, pra depois voltar pra brincar com todo mundo.

Marina saiu correndo em direção ao mar. Lá ela pensaria outro jeito de manter Martin sob sua batuta.

 

Carmezim escreve às quartas-feiras

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