Faz algumas semanas, um mistério científico levou muita gente a rediscutir um mistério fílmico. Cientistas da Universidade de Louisiana descobriram a causa provável da onda de suicídios que atingiu aves da Baía de Monterrey, Califórnia, em 1961: comida envenenada.

O problema estaria no plâncton que serviu de comida a moluscos e peixes, que por sua vez estavam no cardápio diário das aves. Algo na água (pesticidas ou outro produto) causou a confusão cerebral que levou à morte de centenas de albatrozes de pés-negros, pardelões do norte e cagarras-de-cauda-curta.

E a essa altura você já sabe qual é o mistério fílmico: Os Pássaros, de Alfred Hitchcock. O que leva ao ataque de fúria sanguinária das aves contra Rod Taylor, Tippi Hendren e o toda uma cidade californiana, o filme não diz. E apesar de o acontecimento de Monterrey ter inspirado Hitchcock, o potencial aterrorizante de Os Pássaros está justamente nessa não-explicação, nesse caos tão absurdo que chega a ser possível, eu arriscaria dizer, na impossibilidade de explicar o mal.

Pessoalmente, acho a sequência mais amedrontadora e mais reveladora dos métodos hitchcockianos aquela dos corvos no parque infantil. Eles chegam aos grupos e vão pousando calmamente, todos, em um brinquedo de metal. Eles não atacam crianças nem parecem ameaçadores. Não são mostrados como monstros terríveis. São apenas pássaros. O problema é que estão olhando para nós.

Muito do mistério e do medo, em Hitch, passa pelo olhar. E são esses três fatores que alinham O abrigo (“Take Shelter”), de Mike Nichols, com a obra-prima do mestre do suspense.

Pano rápido, é a historia de um homem que começa a ter premonições sobre uma tempestade gigantesca. E que não sabe se crê ou se ignora o que prevê.

Como Pássaros, O abrigo comporta um claro enigma. Por um lado, é uma alegoria do poder destrutivo e contagioso da paranoia. Por outro… Bem, melhor não continuar para não quebrar o suspense (ainda que, como nos filmes de Hitch, o ótimo final ainda valha menos que o seu todo, que é excepcional).

O grande interesse desse que é o segundo filme de Nichols é que, ao contrario de Pássaros, ele não se fecha para explicações exteriores, mas se abre para várias delas. Cada elemento do filme é um caminho possível para uma interpretação: o personagem (vivido por um incrível Mike Shannon), sua família, a tempestade que ele vê, o uso inteligente de convenções do terror (aparições de gente estranha atrás da janela embaçada, portas batendo etc.)

E que falta não fazem hoje em dia filmes assim, em que o mistério se instala, inquebrável? Um dos muitos efeitos da blockbusterisaçao do cinema foi viciar o espectador na explicação.

O abrigo faz pensar em Osama e Obama, em Kyoto e Sendai, em Salvador e São Paulo com seus suas cracolândias e seus apartamentos com elevador para guardar o carro dentro de casa. Faz sobretudo pensar no mistério que é a arte de não revelar nada, mas ser claro sobre todo o resto.

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O abrigo teve sua data de estreia no Brasil em fevereiro adiada.

Diego Damasceno escreve às terças

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