Fácil seria criticar os amigos pelo mau uso de smartphones e pelo excesso de redes sociais e continuar usando o combo máquina de escrever + orelhão, só de birra. Mas não sendo isso o que fazemos, há duas opções: ou nos esquecemos das críticas quando chega a nossa vez (“me rendi!!” como primeiro status do Facebook) ou aceitamos o autodesafio de fazer diferente.

Diego Damasceno escreveu aqui recentemente sobre a necessidade de questionar os métodos de produção da Apple, apesar de seus bons produtos, e eu assino embaixo. Mas devo dizer que ganhei um iPhone e, se não vou correr para comprar uma versão mais nova tão cedo, tampouco jogarei o atual fora imediatamente.

Meu compromisso com os leitores do Purgatório me obrigaria a dizê-los se eu realmente achasse que já não podia viver bem sem um iPhone e suas funcionalidades, mas não é o caso ainda. É ótimo, tenho uma agenda mais organizada e portátil, um GPS à mão quando é preciso, um bom despertador. De resto, tenho um monte de aplicativos que me ajudam esporadicamente e que, na maior parte do tempo, não uso.

Por sorte, o primeiro smartphone já apareceu em um momento em que checar redes sociais obsessivamente já se transformou em trabalho_e é algo que tenho pouca vontade de fazer quando não estou diante do computador. Não podemos dizer o mesmo do famigerado jogo da cobrinha, que tornou-se um problema na minha vida social, acadêmica e familiar nos idos do primeiro Nokia 3310.

De qualquer modo, considero que passei no teste do primeiro mês. Não uso o telefone na companhia dos amigos para nada que não faria com meu velho Nokia (ou seja, SMS), me contenho nos jogos, uso os aplicativos com parcimônia. Mas o que gerou debate mesmo aqui em casa – além da patrulha da falta de educação eletrônica a que fui submetida – foi o Instagram.

Há um milhão de razões já exploradas por apocalípticos da era dos aplicativos pelas quais o Instagram pode ser considerado irritante. Ele dá acesso a um clube de usuários de iPhones em que qualquer coisa, por mais sem graça, pode se transformar em uma foto estilizada, com efeito vintage e bordas borradas.

Mas a discussão sobre fotografia não me importa muito, porque acho que o uso que as pessoas fazem do Instagram, como de qualquer outro aplicativo e de qualquer outro site social da vez, tem variantes bem específicas. Há os fotógrafos medíocres que acreditarão serem grandes fotógrafos; há os fotógrafos de verdade que conseguirão usar a ferramenta para trabalhos muito interessantes; há os que não resistirão em fotografar cada elemento da vida cotidiana (como na época dos diários em blogs); há os que irão registrar coisas que os chamam a atenção no dia a dia.

E essa é a beleza da ferramenta. Ela pode ser uma espécie de entrada para o olhar do outro sobre seu próprio cotidiano ou pode mostrar quão tediosamente narcisistas são alguns dos nossos convivas. O que eu não tinha percebido sobre o Instagram, acompanhando-o de fora, é que ele não foge à regra da criação de uma necessidade que vai muito além da retromania dos filtros lomográficos e setentistas: o imperativo de mostrar aos outros onde você está e o que está fazendo.

Basta se descuidar um pouco do seu autodesafio e a vida com o Instagram se torna uma estetização constante de todos os objetos de momentos. O prato de comida, a mesa de trabalho, o lugar que visitei hoje, o jantar com amigos de amanhã, o show para onde estou indo, a balada na qual me divirto muito agora. É menos a possibilidade de registrar com mais facilidade a beleza das coisas e mais a exploração da “compartilhabilidade” delas (as pessoas tem que ver como é legal a minha caneca de café do trabalho).

Em suma: não me venha falar mal do Foursquare se você usa o Instagram em cada lugar onde chega. É duro encarar, mas estamos diante do mesmo problema. O Foursquare, uma forma crua de disponibilizar sua localização para todos, é como o Cow Clicker, um jogo de Facebook em que era preciso somente clicar em uma vaca todos os dias, sem objetivo algum*. Ele existe _involuntariamente, neste caso_  para mostrar, sem firulas, que o que queremos mesmo é que nossas loucas aventuras e altas confusões sejam visíveis, compartilháveis, imagináveis e invejáveis. O Instagram, no fim das contas, faz algo muito semelhante que o Foursquare, mas disfarça com fotos bacanudas.

Fui pra Salvador no meu primeiro mês de smartphone e, apesar do verão, do sol, das praias lindas e das inúmeras iguarias fotografáveis, meu saldo instagramador foi muito baixo. Tomei a decisão de não sair carregando um iPhone por aí só porque sim já que a gente esquece, mas está carregando cerca de 3 mil reais no bolso. Então praias onde vou me lambuzar, shows grandes e festas de largo estão vetados para este fim.

O problema é que senti falta e me peguei pensando porque diabos estava sentindo falta. E era isso. Eu não era tão melhor do que os outros, afinal. O bicho me mordeu. Num último ato de resistência, larguei o iPhone trancado na mala e levei uma câmera velha para a Lavagem do Bonfim. Foi tranquilo, não me preocupei com nada, tirei muitas fotos mentais (e analógicas) que ainda não revelei. Mas provei a mim mesma que nem tudo precisa ser instagramado para ser bem vivido. Já vi que vou precisar lembrar disso de vez em quando.

 

*O Cow Clicker foi criado como sátira a jogos sociais famosos como Farmville (mais sobre essa história interessante aqui).

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.

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