A primeira vez que eu ouvi falar de José Saramago foi num programa de televisão (a cabo) apresentado por Antonio Skármeta. Nele, o escritor chileno falava sobre livros. Comentava brevemente as obras e trechos delas eram encenados por atores. Lembro-me claramente da cena de Ensaio sobre a Cegueira. Sentado no banco do automóvel, o rapaz espera impacientemente que o semáforo fique verde até que, de repente, é acometido de uma cegueira branca.

Eu devia ter uns 18 anos quando vi aquele programa e fiquei tão impressionado que anotei o nome do tal escritor português e saí decidido a gastar parte da minha mesada para comprar o tal livro. Pode que tenha sido o primeiro livro que comprei na minha vida. E foi um dos primeiros que li por vontade própria.

O primeiro foi Agosto, de Rubem Fonseca, e quem me emprestou foi o Júlio, professor de História do Brasil. Na minha formatura do colégio, meus pais foram agradecê-lo por ter “conseguido” me fazer ler um livro que não era de leitura obrigatória da escola.

O que meus pais não perceberam, porque também não tiveram, é que não era a preguiça que me impedia de ler, era a falta de estímulo. Na minha casa, aos fins de semana havia jornal e revista. Música nunca faltou (e de ótima qualidade), mas livros, como romances, poesia e afins, isso nunca existiu – nem na minha casa nem na de ninguém que eu conhecia, fossem familiares ou amigos de infância.

Se na cidade do interior onde eu cresci havia biblioteca, nós nunca fomos apresentados. Só fui conhecer uma quando fui fazer faculdade. Sem muitos amigos e com péssimas aulas (quando havia), encontrei nos livros a melhor companhia. Comecei a escolhê-los sem muito critério, mas aos poucos fui descobrindo o que me interessava. Um autor puxava outro, que puxava outro…

Comecei a fazer essa reflexão há algumas semanas, quando vi uns videozinhos de pouco mais de um minuto que a Televisa (televisão mexicana que não tem como forte a qualidade de sua programação) fez. O formato é parecido com o do programa de Skármeta, mas mais curto, e em vez de atores, são animações – muito bem feitas. Servem para despertar a vontade de ler, escutar uma música ou ver uma pintura. Quem tiver curiosidade, aqui está a página do projeto da TV mexicana, batizado de Imaginantes.

Onde quero chegar com tudo isso? Na importância do incentivo para que alguém descubra o universo da literatura. Na semana passada, a Tatiana Mendonça, colega deste Purgatório, declarou seu amor aos livros e citou uma frase linda de Bartolomeu Campos de Queirós: “Ler é meu único sonho viável”.

Pois para que alguém comece a ler – e assim sonhar – é preciso que outro lhe abra a primeira porta para esse outro mundo.  Basta um empurrãozinho. É viável, eu e Tatiana somos prova disso.

Ricardo Viel escreve às segundas

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