Para Paco e Eduardo

A cidade se transformava com a chegada do Anúncio. Primeiro eram os pássaros que se punham a cantar, em coro, todos eles, a mesma melodia; logo um vento vindo do Sul varria as calçadas e fazia tocar o sino da igreja.

As visitas de Anúncio eram um acontecimento em minha vida. Eu, que jamais saíra daquela aldeia, via no profeta uma ligação, a única, com o resto do mundo.

Aquele homem era um enigma. Às vezes chegava ao povoado descalço, barba e cabelo enormes e roupas em frangalhos – era quando ele se parecia a um ancião (alguns juravam que ele tinha mais de cem anos). Passados alguns meses ele voltava com um chapéu na cabeça, calça e camisa branca impecáveis, e era um garoto de 18 anos com seu violão na mão.

Ele se sentava na praça e esperava que nos reuníssemos a seu redor para começar a falar. Contava sobre o que havia para lá da ponte, falava sobre os mares que tinha cruzado, sobre a neve, os vulcões e terremotos que tinha visto. E nós viajávamos junto com ele.

Então eu ou (alguém) lhe pedia: “Anúncio, toque uma canção, por favor”, e aquela figura seca, dos dedos longos se punha a dedilhar naquele violão surrado músicas lindas. Cantava em idiomas que nós jamais soubemos quais eram e emocionava até os cachorros. A cidade parava para ouvi-lo.

Então eu (ou alguém) lhe pedia: “Anúncio, diga-nos uma poesia, por favor”, e ele se colocava de pé sobre o banco da praça e disparava uma centena de palavras lindas, que faziam até o padre desabar em choro.

Trazíamos comida e oferecíamos nossas casas, mas Anúncio nunca aceitava; se banhava no rio, sempre nu, e se secava ao ar livre – sob o olhar curioso de todos nós. Ele nunca sentia frio e dormia embaixo de qualquer árvore.

Anúncio demorava meses para passar pelo povoado, mas ficava apenas alguns poucos dias conosco. Antes de ir embora, dizia sempre o mesmo.

– É chegado o tempo, meus irmãos. O tempo da delicadeza! É chegado!

– E como será isso? -, nós perguntávamos.

Com aqueles olhos da cor do infinito, que nos hipnotizavam, ele explicava:

– De repente, o dia vai voltar-se noite. Nuvens negras cobrirão o céu de ponta a ponta. Uma chuva de pingos que romperão os telhados começará a cair. Mas antes de chegar ao chão, as gotas vão se transformar em pétalas de flor, que hão de colorir toda a cidade. E o ruído dos trovões se transformará em uma melodia que fará com que todos, sem saber por que, saiam de suas casas e se ponham a dançar pelas ruas. Chorando, as pessoas irão se abraçar e dançarão por toda a noite, esperançosas de que aquela chuva e aquela música nunca acabem. Dos muros brotarão poesias escritas com sangue dos que já se foram, e as mulheres, sem estarem grávidas, começarão a parir a nova geração…

O semblante de Anúncio mudava depois da fala e entendíamos que ele já não diria mais nada. Eu o acompanhava até a ponte, curioso para saber mais sobre a nova era, mas ele sempre ia embora calado.

E teve um tempo em que Anúncio não voltou. O novo padre nos trouxe a notícia de que ele fora morto em uma emboscada não muito distante de nosso povoado. O homem que o atacou foi encontrado desarvorado próximo ao corpo do profeta e contou ao delegado que confundiu o Anúncio com o violador de sua filha. Na primeira estocada de canivete, da barriga de Anúncio voaram pássaros e surgiu uma luz tão forte que deixou o justiceiro cego para sempre.

Hoje, na cadeia, esse homem conta que, desde aquele dia, sente uma dor que lhe queima o peito. Diz que sonha todas as noites com o profeta e promete que quando sair livre correrá o mundo anunciando a chegada da nova era, o tempo da delicadeza.

Ricardo Viel escreve nesta segunda sob efeito de um par de caipirinhas batizadas

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