Uma lenda medieval transcrita pelos Irmãos Jakob e Wilhelm Grimm conta que na cidade alemã de Hamelin, em 26 de junho de 1284, ratos famintos se empilharam nas ruas, nos celeiros e nas casas, levando seus habitantes ricos e bem alimentados ao completo desespero.

Diante da gravidade da ameaça, eles ofereceram cem moedas de ouro a quem os livrasse dos ratos, e um flautista franzino se apresentou. Tocando a flauta, ele conduziu todos os ratos – que o seguiram obedientemente – até um rio próximo, onde os animais acabaram morrendo afogados.

Em seguida, o flautista voltou para a cidade para cobrar sua recompensa por ter feito o serviço sujo que parecia impossível para qualquer outra pessoa. Mas o conselho administrador de Hamelin, que festejava a vitória sobre os ratos, disse que não o pagaria, já que a única coisa que o flautista de fato fez foi, ora, tocar uma flautinha.

Furioso, o flautista saiu pela cidade tocando outra canção que atraiu todas as crianças para as ruas. Do mesmo jeito que os ratos, elas seguiram o homem para fora dos muros de Hamelin e nunca mais voltaram.

O que eu mais gosto nessa fábula é que nossa simpatia está, na maior parte do tempo, com o flautista, até que ele vira alguém vingativo e implacável.

É quando ele tira da cidade o que ela tinha de melhor que a gente não sabe mais se continua tendo razão. Se os cidadãos de Hamelin mereceram. Se a consequência foi pesada demais. Se a vingança do flautista foi o ato de um benfeitor injustiçado ou a crueldade de alguém que perdeu a medida do seu próprio poder.

Seja como for, castigo merecido ou pura maldade, a história do flautista de Hamelin é uma das fábulas morais que ainda deixa uma atmosfera de medo e até de um certo luto depois de contada. O conto acaba e as crianças não voltam. O flautista não perdoa, nem é perdoado. Nada se resolve para o bem de todos.

A história nos diz que todas as nossas vilanias, mesmo que pareçam pequenas ou justificadas, podem ter consequências grandes demais. Podem tirar de nós algo realmente importante, que nunca mais vamos recuperar. Inocência, talvez. Segurança. Liberdade. Vidas. Todas as alternativas anteriores. Sabe-se lá o que o flautista vai tirar de nós quando ele começar a tocar. E quem vai poder julgar idoneamente as suas razões?

Deixado de fora do balaio dos contos que ganharam final feliz nas adaptações da Disney, O flautista de Hamelin acabou sendo também esquecido pela maior parte dos livros e do imaginário popular. Uma pena, porque a verdade é que desde 26 de junho de 1284, a história nunca deixou de ser contada.

Em 6 de agosto de 1945, por exemplo, a melodia pode ser ouvida por quilômetros e quilômetros no Japão, como um estrondo.  Em 1º de setembro de 2004, o que se ouviu foi o barulho de tanques e explosões dentro de uma escola na Chechênia. Em 11 de setembro de 2001, soou como se um avião tivesse passado zunindo por Nova York e ido de encontro a um edifício.

A flauta passa de mão em mão e os flautistas são muitos. O conselho avarento da cidade daqui é, amanhã, o flautista de acolá. Aquilo que essas canções levaram embora, assim como as crianças de Hamelin, está perdido para sempre.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras, mas ficou encarregada do texto
deste domingo na divisão anual de efemérides do Purgatório.

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