O filme mais triste que eu já vi na vida foi Chatran, e nem me lembro exatamente o porquê. Sei que mostrava a jornada de um gatinho que era levado pela correnteza para longe de casa, dentro de uma caixa. Anos depois, li que o filme era mudo, mas acho que me lembro de uma voz em off. Acho que era algo como um documentário naturalista de ficção para crianças.

Lembro também de Chatran no rio durante a noite, de como ele se sentia sozinho e de como isso me entristecia. Lembro de chorar muito. Nunca revi o filme depois da infância, mas guardei a lembrança forte, ainda que vaga, desse sentimento.

E sei que era diferente de “Em Busca do Vale Encantado”, o segundo filme mais triste que já vi na vida. É mais fácil entender hoje o porquê de eu ter sido tão tocada pela história de Littlefoot. Ele se perdia da mãe durante a grande migração dos dinossauros, ficava sozinho em um mundo que estava mudando, aprendia a reconstruir uma família com amiguinhos de espécies diferentes. Enfim, o filme tinha lições de vida claras o suficiente para que eu e meus contemporâneos nos lembremos dele. Se as crianças hoje são da geração Harry Potter, eu sou da geração Em Busca do Vale Encantado. E nós também tivemos oito filmes, obrigada.

Recentemente comecei a baixar filmes obscuros que me marcaram quando eu era pequena, como “A Lenda de Billie Jean”. Na maioria das vezes, foi bom descobrir o que me marcou nesses filmes. Só Chatran eu não encontrei. Permanece um borrão na minha memória, uma lembrança à qual eu só tenho um acesso emocional incompleto.

Na semana passada, encontrei na internet um ensaio fotográfico chamado “Childhood is like a loaded gun” (A infância é como uma arma carregada), da fotógrafa Ilze Vanaga. Apesar da metáfora bélica do título, é um ensaio um tanto bucólico, que tem a sobrinha dela, Katrina, usando as roupas que ela usava quando tinha seis anos de idade.

Vanaga disse que, quando tinha essa idade, perdeu-se da realidade e passou a viver numa espécie de sonho constante e rico em sentimentos. Uma vida em que ela estava sempre imaginando situações, mesmo sabendo que não aconteceriam. As fotos me impressionaram muito, porque me fizeram reencontrar uma sensação que reconheci da minha infância mais antiga – aquela da qual eu não lembro, onde deve estar Chatran.

É que o olhar de Katrina, em todas as situações em que ela é fotografada, tem um abandono em si mesma difícil de descrever, uma coisa que me parece impossível saber o que é se você não tem mais seis anos de idade. A psicologia não transpõe esse abismo, acho. Nem as teorias holísticas sobre como as crianças sabem coisas que os adultos não sabem.

Me parece algo que a gente perde mesmo, para sempre, depois que sai desse sonho constante ao qual Ilze Vanaga se refere. Mesmo que minha vida interior na época não fosse profunda, foi estranho sentir que o meu eu de seis anos é uma das coisas mais inalcançáveis do mundo pra mim.

Acabo de descobrir que alguma boa alma colocou As Aventuras de Chatran na íntegra no YouTube, e dublado. Agora sei que o filme era japonês, quando foi feito, qual é a sinopse. Estou com um pouco de medo de assisti-lo outra vez, me desejem sorte.

E aqui dá para ver as fotos de Ilze Vanaga.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras

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