Perder a esperança não estava nos planos. Nunca esteve. Manter rodando o ônibus precário, mas de um colorido vivo. Seguir, parar, montar a festa, sonhar, seguir. Com carro de circo não se brinca. Em determinado momento da vida, ele assume uma alma própria, sorri, faz travessura, suplanta as dificuldades. Pneu careca, como a cabeça do palhaço. Passageiros-trapezistas, sem rede apara-quedas. Contorcionismo pra caber todo mundo.

Mas parecia que dessa vez não tinha jeito.

O acordado entre todos os integrantes vinha sendo mantido: de cidade em cidade, nada de muita quilometragem pra rodar. De Mundo Novo para Itaém não dava 30 km, mas a grande-máquina-de-propagar-fantasia tinha resolvido parar, e vontade própria de carro de circo é batata: só na malandragem pra fazer rodar de novo.

Primeiro desceu a dupla de trapezistas. Esguios, ele mais velho, ela sorridente. Os braços fortes, musculatura definida. Mexeram pra lá e pra cá em todas as partes estruturais por debaixo do ônibus. Onde tinha uma sutura, uma junção, uma solda, um encaixe de ferros, meteram a mão. Diagnosticaram: de mau encaixe não sofria.

Três motociclistas do globo da morte saíram, pegaram seus instrumentos de trabalho na carroça que vinha presa no fundo do ônibus e começaram a circundar, barulho ensurdecedor, tirando tinta da lataria do grandão. O diagnóstico: não fora por medo que o ônibus tinha parado.

O domador só entendia de chicotadas. Foi proibido de descer.

Ah, o mágico! Quem mais? Garboso, pegou a varinha escondida dentro da calça (era dobrável!), pigarreou, desceu pisando leve. Disse um sarlapim-pim-pim, se sacudiu, tocou a lataria com a ponta da varinha, sorriu. O ônibus fez que ia, rém-rém-rém-rém-rém-rém, e voltou a silenciar. Um sinal de respeito pelo mágico.

Vontade de carro de circo é uma ciência. Tentaram e tentaram muitas vezes. A Mulher Barbuda tentou fazer pegar no susto. Malabaristas mudaram fiação de lugar, ajeitaram as malas no bagageiro, o apresentador fez do teto do ônibus picadeiro, gritou com a voz mais grossa do mundo. A certa altura, todos tentavam fazer algo ao mesmo tempo, respeitando suas habilidades, e então estava o circo formado no meio da pista. Gato pingado que passava, parava pra ver.

Fizeram tudo o que sabiam.

Foi quando o palhaço sentou na escada da porta de entrada do ônibus e chorou. Quem bateu a chave no quadro naquela hora ficou impressionado como o motor ligou macio macio.

Carmezim escreve às quartas

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