De tanto ser visto indo ao banheiro, os caras do escritório apelidaram o Irineu com o mais óbvio dos trocadilhos – ao flagrá-lo levantando-se da bancada com o nariz voltado para a porta do sanitário, ou então quando cruzavam com ele nos arredores do toalete, logo o Alex, o Mendes, o Sampaio comentavam sottovoce, Lá vai o Urineu. O uso recorrente da piada cristalizara-a em um rito de ênfase à amizade, sagacidade e juventude dos caras do escritório, todos com menos anos de casa que o Irineu e nutrindo pelo colega desprezo semelhante ao que se tem para com um objeto de mau gosto. No núcleo desse menosprezo, o magma do temor de se tornarem iguais a ele: um homem de idade e meia cuja carreira não havia tido o mínimo de progresso desde o início. O Irineu era funcionário público.

As garotas da repartição conheciam a piada do Lá vai o Urineu, e até riam dela, porém nunca tomavam a iniciativa de proferi-la. Verdade seja dita, simpatizavam com o decano — só não o bastante para o convidarem com sinceridade para os happy hours de sexta e, tampouco, para inseri-lo na Lista dos Melhores Partidos Entre os Colegas de Trabalho. O Irineu era um hors-concours às avessas: sua ausência era premissa naquele rol permanentemente em construção, ponto de pauta constante na hora do almoço, já que, ali no escritório, o banheiro, tradicional local de sociabilização feminino, não era propício a tal função: era unissex. Todavia, o desinteresse sentimental das garotas pelo Irineu não o impedia de receber a cota de ternura dedicada aos homens de segunda divisão. Volta e meia, como colegiais crescidas, elas o brindavam com uma exposição de decote, uma piscadela, a mão pousada no ombro, o corriqueiro bullying feminino. Atribuíam a seus talentos de sedução os mimos que, de uns tempos pra cá, o Irineu começou a levar-lhes: um sonho de padaria para dona Arlete, uma alfazema pra dona Carminha, uma biju pra dona Norma.

Distraídos com seu rito, os caras do escritório passavam batidos pela existência de um padrão nas idas do Irineu ao sanitário, sempre depois das garotas. Elas, por sua vez, nem sonhavam que os presentinhos recebidos pudessem ser mais que agrados de um cinquentão na idade do lobo, quando na verdade faziam parte de um processo científico de alto gabarito, estando devidamente linkados às suas tantas viagens ao banheiro.

Antropólogo de formação, com gosto pelas demais áreas humanas, o Irineu vinha desenvolvendo pesquisas em campo pioneiro, o qual chamava de uropsicanálise, estudos uropsicossomáticos ou omnidiagnose ureica – ainda não havia decidido o nome da criança. A ideia surgira-lhe enquanto defecava na repartição.

Eis que, certa feita, ao entrar no banheiro imediatamente após dona Norma, não pôde deixar de notar o pedaço de papel higiênico do topo da pilha acumulada na lixeira, a folha dupla retangular enrugada bem no meinho, na parte onde estava úmida. Ato reflexo, Irineu coletou o papel, aproximou-o do nariz e aspirou-o timidamente. A acidez da ureia fez cócegas nos pelos da narina. Na segunda cafungada, sentiu o agridoce do xixi atrás do pomo de adão. E no instante seguinte, era a ponta da língua que raspava a superfície do papelzinho.

Seis meses e dois cadernos foram gastos no estágio inicial da pesquisa, que consistia em compreender a variação de cores e odores e, ademais, a densidade, acidez e outros elementos identificáveis com o auxílio de material de laboratório: uma fita que reagia ao contato com o xixi e uma tabela para interpretar os diversos quadradinhos que nela apareciam ao fim da reação. Trabalhando sempre com amostragem feminina, o Irineu passou a abordar as colegas com perguntas que lhes soavam estranhas mas cujo tom afável as incentivava a responder, questões do tipo, O que você jantou ontem?, Você toma algum suplemento vitamínico? No segundo semestre, as indagações viraram assertivas:

– Dona Carminha, a senhora precisa se alimentar direito, comer em intervalos de duas em duas horas – disse-lhe, quando descobriu a presença de cetonas na urina da colega, um forte indicador de jejum prolongado em não-diabéticos.

– Dona Arlete, não abuse do dorflex nos períodos de cólica – alertou-a em seu primeiro diferencial bem-sucedido, uma explicação para o enigma da recorrência conjunta de hemoglobinas e baixo pH no xixi da mulher.

Os acertos e erros eram todos registrados em seu diário de campo e, ao sentir-se seguro com a quantidade de predições, Irineu deu início à terceira etapa da pesquisa – algo mais ousado, que ia além do mero diagnóstico físico e condensava a parte psico de sua teoria. Ele tentaria, a partir de então, conhecer os humores das colegas por meio de uma análise imediata do seu xixi, valendo-se tão-somente dos seus sentidos. De certa forma, ao longo do ano já vinha se aprimorando em tal prática (gostava de pensar que era uma forma de arte, sutil, cheia de nuances): sabia, dentre outras coisas, sobre a marca de fetidez suprema provocada pelas genuínas comoções, daquelas que incluem choro; sabia também do doce cheiro advindo, inverossímil, de situações de estresse; e do fugaz toque de rosas secas que indicavam paz de espírito… No quinto caderno de anotações, uma máxima de Dior adulterada servia de epígrafe:

O aroma da urina de uma mulher diz mais sobre ela que seu perfume e sua letra juntos

Ainda distraídos com sua sagacidade e juventude, os caras do escritório não percebem que algo mudou no clima da repartição no último mês; que, embora as garotas continuem rindo da piada do Lá vai o Urineu, é ele, o Irineu, quem elas primeiro chamam para os almoços e os happy hours. Sentem que ele as entende. Dona Norma chegou a dizer que o Irineu consegue ler seus pensamentos, pois sabe exatamente o que está sentindo sempre. Ela agora se levanta da bancada para dizer-lhe que, nesta quarta, enquanto o Alex assiste ao Brasileirão com os amigos no bar, ela o espera na sua casa para conversarem com mais tranquilidade, quem sabe beber um vinho e, definitivamente, provar sua nova receita de beringela à parmegiana.

Breno Fernandes é o convidado especial dos sábados durante a ausência de Vítor Rocha, enviado especial a Oslo, na Noruega. 

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