Nos últimos doze anos tenho acumulado papéis sem saber ao certo o que fazer com eles. São cadernos, bloquinhos de anotações, cartas, fotos, postais e folhas soltas que acabo por guardar, sobretudo, por medo de jogá-los fora – na vã ilusão de que um dia possam ser úteis ou (hipótese mais provável) por comodismo, já que para se desfazer desse passado é preciso revisitá-lo.

Nesta semana decidi que havia chegado a hora de fazer a tal faxina nesse arquivo. Reler esse material foi um exercício doloroso de autoanálise.

Uma carta de 2002, que voltou porque o carteiro não encontrou o destinatário, me fez olhar com ternura para aquele otimista que um dia fui. Onde foi parar aquele sonhador que reforça na missiva sua negativa em acreditar que a resignação é sinal de maturidade? Há ali uma ingenuidade, é fato, mas também uma força que hoje não sei se ainda tenho – e se tenho, não sei como despertá-la.

No diário de viagem de 2000 e 2001 só reconheço marca minha na caligrafia – que sempre foi feia, quase ilegível. As anotações trazem impressões superficiais de lugares e situações e foram escritas por alguém que via, pela primeira vez, o mundo se abrir frente a seus olhos. Sinto compaixão, mas também alguma inveja daquele eu que, por estar só começando a conhecer tanta coisa, as via com plenitude.

No fim, essa arqueologia pessoal me mostrou que mudei, e muito, nesse tempo. Sim, é natural (e até saudável) que o eu de hoje não seja o mesmo de uma década. Mas chego a temer que a mutação tenha sido tão grande a ponto de ter atingido a essência. E, creio eu, na essência nós (quase que todos) somos doces e ternos.

Agora me ponho a pensar em como será daqui a uns dez anos quando eu fizer uma limpeza no material que a partir de hoje começo a acumular. Haverá compaixão e inveja? E a essência, como estará?

Ricardo Viel escreve às segundas

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