Não queria escrever. Por mim, eu fazia meu trabalho todo em silêncio, na surdina – melhor: sem me esconder, mas também sem me anunciar.

Queria que meu trabalho fosse descoberto, mas que os olhos fossem apenas meio e não fim; que levassem direto para o corpo e não para a cabeça, donde meu trabalho viraria objeto de pensamento, capturado numa fração de segundos, e depois arquivado numa memória qualquer.

Que meu trabalho descesse ao corpo, tocasse a alma, que não se deixasse esquecer de todo, mas que se fizesse lembrar por partes. Algumas partes, não tudo.

E que cada descoberta que meu trabalho proporcionasse – sim, queria que ele também ajudasse a descobrir – fosse não exclusiva, mas acessível. Digo: que meu trabalho fosse visto não por um de cada vez ao mesmo tempo, mas por vários de uma vez na mesma sala. De uma vez só.

Nessa sala o escuro seria a parte a esquecer; o claro, a parte a apreender. Seria o inverso da letra preta no papel branco. Que meu trabalho entregasse um mundo, ao invés de descreve-lo, desenha-lo, sugeri-lo. Que não precisasse de luz para ser lido, pois seria ele proprio feito de luz.

Sério, nesse momento que escrevo, não queria escrever. Só escrevo para contar que a gente não é sempre o que é principalmente – e que hoje, ao invés de um texto, eu queria fazer um filme.

Diego Damasceno escreve às terças

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