Violinos e um piano, bateria e uma escalada de notas de guitarra abrem o arranjo mais famoso da canção Caçador de Mim, de Luis Carlos Sá e Sérgio Magrão, cantada por Milton Nascimento, esse grande lá das Minas. Reouvindo o trecho de olhos fechados o leitor não terá dificuldade para imaginar a cena poeirenta de um duelo de morte – releitura talvez de um western daqueles – que ainda um dia, quem sabe, será filmada por Caranguejeira Filmes.

Porque haverá poucas ilustrações mais precisas do que a poesia de Caçador de Mim para o duelo entre dois seres humanos do qual se originam as noções de Senhor e de Escravo, conforme nos ensina o alemão G.W.F. Hegel (1770-1831) por meio de seu intérprete Alexandre Kojève. A justaposição, a seguir, de versos da música e de uma introdução sucinta da utilíssima “Dialética do Senhor e Escravo” que perpassa as relações humanas – as de amor, as de trabalho, as familiares, as políticas, as sociais etc – tentará tornar menos absurda a conexão entre música popular e filosofia que O Purgatório de hoje propõe.

Por tanto amor/ Por tanta emoção/ A vida me fez assim/ Doce ou atroz/ Manso ou feroz/ Eu caçador de mim

Referir-se a si próprio como “eu”, como cedo aprende qualquer criança, não significa ainda que um ser humano (ocidental) seja “consciente da própria realidade”. Prenhe de contradições, como nos versos, o animal humano descobre-se “eu caçador”, isto é, uma individualidade que depende do embate com um objeto – e, no limite, com outro ser – para ser despertada, cutucada, ativada.

Preso a canções/ Entregue a paixões/ Que nunca tiveram fim/ Vou me encontrar/ Longe do meu lugar/ Eu, caçador de mim

Declarar-se “eu”, portanto, é declarar apenas uma primeira e imprecisa impressão de si próprio. É declarar que um objeto, uma outra pessoa – que o mundo concreto enfim – afeta um ser em busca de uma identidade. A palavra-chave aqui é, longe de pieguices, paixões: é por meio delas que o ser humano – apaixonável, apaixonante, apaixonado, porque inquieto – age negando a realidade que o cerca e o formata. Quer consumí-la, desconstruí-la, transmutá-la, processá-la, fagocitá-la, ressintetizá-la e enfim reconstruí-la (e assim reconstruir-se) com novo significado: é o tal do desejo, propulsor de toda individualidade. Individualidade que, porém, jamais se contentará apenas com desejar objetos: o desejo profundo do ser humano, em vez disso, é desejo por reconhecimento, dirá o filósofo. De modo que o desejo se voltará a outra(s) pessoa(s): se tornará desejo pelo desejar do outro, porque afinal é essa a fonte de todo reconhecimento. Como diz o Caetano de Menino do Rio: “pois quando eu te vejo eu desejo teu desejo.”

Nada a temer senão o correr da luta/ Nada a fazer senão esquecer o medo/ Abrir o peito a força, numa procura/ Fugir às armadilhas da mata escura

Ora: se um deseja possuir o desejo do outro, também o outro, igualmente humano, desejará possuir o desejo do um. Trava-se então o tal duelo de morte, instigante batalha pela conquista do desejo alheio. A moeda em jogo é reconhecimento. Habituado a subjugar, destruir, consumir objetos, o ser humano tentará subjugar, destruir, consumir o outro ser humano. Dois animais humanos então, movidos por essa mesma energia beligerante, lutarão até a beira da morte – só não se matarão porque, afinal, mortos são incapazes de reconhecer a quem quer que seja. O vencedor da luta, diz Hegel, será chamado Senhor. Passará a ser o dono do desejo que há no olhar do Escravo, o vencido. Terá direitos sobre tudo o que este produzir. E obterá através do produto do trabalho do servo o reconhecimento que o fará sentir-se sujeito pleno.

Porém será tão doce quanto efêmera essa certeza-de-si que sentirá o Senhor, esse triste. Porque logo logo 1) o perdedor da luta, escravizado, perderá seu antigo caráter de grandeza perante o olhar do amo – e então, de que valerá ser reconhecido por um ser vil, porque inferiorizado? E 2) o produto do trabalho do Escravo já não saciará mais o Senhor. Ele sentirá o que sente quem come todos os dias num mesmo restaurante: a comida, que no primeiro dia fora maravilhosa, torna-se repetitiva. E logo enjoativa; depois, insuportável. Tragédia para o Senhor, que não terá aprendido a trabalhar (tarefa de Escravo, ora!) e ao qual restará, para obter mais uma dose do reconhecimento agora perdido, a mera (a dura, a desesperadora) alternativa de arriscar novamente a vida em outro duelo de morte para – caso saia vivo – obter um novo Escravo.

Longe se vai/ Sonhando demais/ Mas onde se chega assim?/ Vou descobrir/ O que me faz sentir

E o Escravo? Perdida a batalha contra o agora Senhor, terá-lhe restado nada mais que 1) conviver com o medo da morte, materializado no amo; e 2) o dever de trabalhar e trabalhar e trabalhar, servilmente e pelo resto da vida.

Mas o medo da morte uma hora passa. Porque a obrigação de trabalhar para o Senhor, inicialmente aterradora, vai sendo assimilada. Torna-se primeiro algo possível de se realizar. E depois transforma-se em trivial, de modo que, com o tempo, já não haverá razão para temor nenhum.

E, privado de receber por parte do Senhor um desejado olhar de reconhecimento, o Escravo tentará preencher essa lacuna do espírito por conta própria. Aos poucos, e não sem perseverança, poderá encontrar em si mesmo – no resultado do próprio trabalho e não mais no olhar alheio – o reconhecimento que um dia tentou obter no duelo do qual saiu derrotado. O jugo do Senhor representará (pasmem!) a chance de aprender a reconhecer-se a/em si próprio, no esmero da própria artesania. Terá a chance de não precisar de um outro ser para atingir a “consciência da própria realidade”, ou seja, tornar-se livre e pleno, uma consciência-de-si. Só o Escravo terá a chance de descobrir “o que o faz sentir”, como diz o verso. É uma espécie de reconhecimento auto-produzido, uma sorte de fotossíntese redentora do espírito. A servidão, dirá o filósofo, é a única oportunidade real de transcendência no rumo de uma consciência livre.

Esse caminho é talvez longo, certamente duro, e não há garantia de que uma vida só baste para percorrê-lo. Mas no fim da estrada estará uma deliciosa e sóbria independência que, muito ao contrário de ser egoísmo auto-suficiente, será a única possibilidade de abertura real para um novo matiz de relação humana, em que dois seres livres compartilham – não consomem, e sim somam – suas grandezas (suas liberdades) individuais. Interagem sem hierarquia. Sem dominação. Sem Senhor nem Escravo.

Eu, caçador de mim.

A quem já tiver chegado lá, este blog convida a escrever contando como é. E ao restante de todos nós, os demais, O Purgatório deseja boa sorte na caçada.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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