Em O Ano da Morte de Ricardo Reis (livro de 1984) o escritor José Saramago defende a tese de que assim como tardamos para nascer, tardamos também para morrer. Seria necessário por volta de nove meses para se acostumar com a ausência de quem foi embora. Para o Nobel português, é depois dessa gestação que realmente há a morte, que ocorre quando se deixa de existir na memória dos outros.

“Salvo nos casos excepcionais, nove meses é quanto basta para o total olvido”, diz, na novela de Saramago, um recém-falecido Fernando Pessoa a Ricardo Reis.

A tese exposta no livro fala especificamente da morte dos seres humanos, mas me ponho a refletir sobre sua aplicação também quanto aos sentimentos. Quanto tempo demora a curar a ferida de um abandono, de uma traição? Quanto tempo levamos para esquecer alguém que, ainda vivo, já não faz (ou não deveria fazer) parte da nossa vida? E a saudade de lugares, de momentos marcantes que vivemos?

É claro que cada ser humano é um universo, que cada dor (e alegria) tem um peso único na vida de cada um de nós. No entanto, tenho para mim que os cerca de nove meses (há os que nascem de oito meses e os que demoram até mais do que os nove para surgir) são um período “razoável” para a cicatrização de uma ferida, o alívio de uma dor e, também, o fim de uma nostalgia. Portanto, tendo a dizer que a tese se aplica também aos sentimentos.

Discordo, apenas, quando o Fernando Pessoa de Saramago fala em “total olvido”. Como já alertou Mario Benedetti, o olvido está cheio de memória. No decorrer da gestação da morte, aquele que se foi passa a não ser mais uma presença constante, já não está; isso não significa, de nenhuma maneira, que nunca esteve. Não se trata, penso eu, de um olvido total. É uma lembrança adormecida, mas que pode vir à tona a qualquer momento.

Na tese do “desnascimento”, Saramago fala da existência de casos excepcionais, mas não se aprofunda na questão. Talvez o próprio seja um deles. Passado quase um ano da morte do escritor, suas ideias e personagens seguem presentes na vida de muitos. De certa forma, Saramago continua vivo, porque não foi esquecido. Bonita exceção. Quiséramos nós que os casos raros se limitassem a exemplos como esses, mas sabemos que há também dores que tardam muito mais de nove meses para se esvair. E há feridas que nunca cicatrizam.

Ricardo Viel escreve às segundas

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