É lindo descobrir as sutilezas da pasta rosa de Ana Cristina Cesar.  Em “Mímesis” sinto um salto sufocante.

“quando esqueço
as grandes assombrações
e beijo teu regaço escuro, tua pequena
pele surpreendente
temo que o meu rosto se desfigure e volte
a imitar
os mistérios da noite e a trágica história do malabarista”.

Passeio pelas mais de 470 páginas de pequenas riquezas, apresentadas, por vezes, por um traço rápido, inebriante. Outras vezes por uma letra desenhada, colorida. E tantas outras datilografadas. Reproduções dos originas que permitem um mergulho nas vozes de AC. Um mergulho de peito aberto. “Gramas”, abaixo.

“O coração tem pouca ironia de tardinha
Segredos carnais à flor da pele
poemas descarnados aguardando

(…)

O coração tem pouquíssimo fôlego na piscina
Nos quintais dispara úmido
Nas salas fechadas cuida das buzinas

A vida se encarrega das janelas
mas acaba descendo em correria
Não cabe Não suporta Não tem peso”.

Permitam-me uma quarta-feira dela.  Poesia de uma alma despida pra avivar o dia.

“ofício esquisito este
onde convivem
aços e sargaços

o poeta se deixa prender
nas malhas mal traçadas
de cabelos
fora do alcance

o desejo
se fixa imóvel
na parede da frente

desenha suas asas
extremas
na vidraça”.

A saber: escritos do livro “antigos e soltos poemas e prosas da pasta rosa”, organizado por Viviana Bosi.

Carmezim escreve às quartas-feiras

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