Tudo já havia começado, as conferências tomavam o tempo de toda a gente e, no grupo formado para representar aquela região, faltava uma. A roda viva das palestras, muitas ideias, cafés e cigarros no corredor já dominavam o ambiente. Havia também a parte festiva. Se descarregava o falatório da cabeça em refrescos de laranja gaseificados.

Aquele nome ninguém sabia que cara levava e depois ele nem era mais lembrado. “Vai ver que se perdeu…”.

Mesmo quando ela chegou, continuou desapercebida. Ninguém a notava e ela fugia das luzes. Os atentos, e maldosos, já diziam que era uma porta, mas sempre vi ali mais do que ela se fazia mostrar. Era um pensamento tão absurdo, que terminei por achar que era coisa da minha cabeça.

Às vezes achamos que sabemos uma coisa, mas na verdade todos sabem outra coisa tão oposta que aquilo que sabemos acaba sendo visivelmente mentira ou invenção para nós mesmos.

Mas às vezes não.

Um dia ela chegou com uma flor gigante presa na cabeça. Quem estava atrás não podia ver a boca do professor, dado aquele objeto reluzente no caminho. Um garoto que estava numa praça elevada viu aquela flor gigante ‘flutuar’ sobre a linha superior do muro. Não via a moça que a levava na cabeça, apenas o objeto para cima e para baixo como que com vida própria. Pensou que estava avoado.

Era a mesma. Ela, que no primeiro dia se apresentou com voz quase inaudível, língua entre os dentes, ombros encolhidos e olhos bem fechados: “Hola, soy Bandie”. O nome quase não se completava.

Depois da flor passei a achar que os outros é que não percebiam que aquilo era mais do que um adereço. Vieram o vestido amarelo, o salto plataforma roxo, as unhas marrons, o olhar sensual e daí para a calça super justa e o vestido decotado em cima e em baixo foi um tapa. Pelo menos até aí era uma surpresa possível – ao menos um havia imaginado.

Mas disso a chegar em poesia erótica…

Pisca a caixa de e-mail e era ela convidando todos ao recital, num bar escuro de um esloveno com barba modelo anciã, pero negra, metido a poeta, talvez frustrado.

“Sou sua mente que me imagina dominar,
Seu braço que me força a cintura,
Seu peito de meu encosto no caminho a Cucúria.

Sou a mim e a ti juntos em escritura,
En la cama toda la noche a delirar,
com esse teu prazer que entra em mim com toda fúria.”

Comecei a pensar o inverso, que agora ela, antes tão tímida e nula, me parecia tão quente, astuta e por demais erótica que seria igualmente surreal. E novamente pensei na possibilidade de aquilo ser uma ficção que apenas eu via como realidade.

Um dia ela encontrou um amigo alegre e criativo depois de fumar um coisa. Nunca havia sentido aquele cheiro, mas já tinha lido que os poetas cheiravam assim.

“Deixa eu fumar também, quero ser poeta”, disse.

E não podia deixar de pensar: “Será que só eu percebo esse movimento?” Era demasiado notável para ser uma visão individual. Estranho nunca ninguém haver comentado.

Estranho ao ponto de ainda não saber se realmente aconteceu aquela noite em que ela levava mini short, meia-calça negra, salto alto, bumbum empinado e dizia a todos, com voz sensual e olhar de lado:

– Yo soy Bandie, la Bandida.

*Vítor Rocha escreve aos sábados

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