I

Recebi uma encomenda para este texto. Tá, tá, tá, não foi exatamente uma encooomenda, recebi um pedido, uma sugestão para este texto: um companheiro de faculdade, agora e doravante chamado de Sr. B – de quem não escuto notícias há certo tempo, mas de quem já soube também ter lá suas vontades de botar uma coisinha ou outra no papel – me interpelou em uma Rede Social para sugerir uma pauta sobre a conflituosa relação de nossa geração com o trabalho, o sucesso e, principalmente, com o fracasso. Pedi que ele me explicasse um pouco mais a sua ideia. Ele me respondeu: “acho que há um discurso de realização profissional que, de certo modo, oprime os que ainda não a conseguiram”. Sim, de fato, pensei. Meio mal educado, no entanto, não o enviei nova mensagem. Ou este texto é minha resposta: me desculpe, Sr. B, mas não conseguirei escrever bem sobre o que me pediu (talvez por medo, talvez por não concordar muito bem com o que se fala sobre, talvez porque Eliane Brum meio que já escreveu e avacalhou qualquer discussão séria sobre o tema).

Mas, pensando por outro lado, gostei da iniciativa do Sr. B, ou pelo menos gostei da forma como ele me abordou. Algumas pessoas já me procuraram oferecendo uma grande ideia para texto e todas, exceto o Sr. B, terminaram a proposta com um argumento irrefutável: “escreva essa ideia, Davi Boaventura, ela vai te render um bocado de dinheiro”. Bem, ainda não escrevi nenhuma dessas ideias mirabolantes, deve ser por esse motivo que continuo pobre.

II

Se estou falando em escrever, sou obrigado a admitir uma preocupação: escrever tem se tornado para mim menos um ato de fabulação e mais uma expressão afetiva visceralmente profunda – cuidado, não falo em termos autobiográficos –, e, como geralmente escrevo em estado de agitação mental – quando acordo ou quando estou deprimido –, meus textos mais recentes soam como uma enxurrada de ansiedade, às vezes raiva ou tensão ou euforia, não que não fosse assim antes, na verdade sempre foi, mas essa característica está cada vez mais se acentuando, e é fácil notar esse estado de espírito já no formato do texto, porque as frases se acumulam, odeio parágrafos e odeio pontos finais, as ideias são encadeadas, justapostas, um bloco maciço de palavras em fluxo contínuo e infinito até o momento de esgotamento do ímpeto, ao ponto do Word chegar a sublinhar uma expressão qualquer e mandar que AQUI eu devo colocar um ponto final e iniciar nova frase com letra maiúscula, o tipo de intromissão que me faz desgostar ainda mais da Microsoft, como se fosse possível, por isso mantenho um caderno ao lado da cama, para não perder tempo com programas toscos de formatação, embora escrever em papel também não queira dizer que eu esteja em terreno seguro. O final deste trecho de texto, por exemplo, está perdido: caiu água em cima e mal consigo decifrar o que escrevi.

III

Minha namorada está me visitando, depois de quase quarenta dias sem nos vermos. Ela está dormindo e é este o único momento em que consigo escrever. Ela, quando acordada, está sempre sorrindo e é um sorriso absurdamente alegre: quem é que se importa em escrever, quando se tem um sorriso assim à frente?

Davi Boaventura se afoga em sorrisos textuais, quinzenalmente, às segundas.

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