para Camilla Costa

Escrevo hoje em solidariedade ao colega Antonio Prata, solitário cronista mundano de um jornal a serviço do Brasil.

Prata foi pai recentemente e, a tirar por suas últimas crônicas, luta, entre banhos e talcos, mamadas e choradeiras e mais a diaba da babá eletrônica, para manter preenchido o espaço dominical que o periódico lhe reserva.

Nunca fui pai, mas imagino o quanto deve ser difícil ser cronista de jornal nessa circunstância. Vejam o caso de Prata: há duas semanas, gastou sua crônica-estepe, uma que tinha de gaveta para o caso de qualquer eventualidade. Semana passada, não tinha cérebro para escrever coisa com coisa, mas mesmo assim, brioso e profissional, entregou ao leitorado um punhado de anotações sobre a rotina de pai recém-parido, as quais a mim ao menos inspiraram mais pena do que graça: deixe essas besteiras de lado e vá descansar, homem, ou cuidar de sua menina em paz, que o leitorado sobrevive sem você. Nesta semana voltou em boa forma, é verdade – mas, enquanto a bebê for pequena, sabe-se lá o que será das semanas que virão.

Então o Prata – goste-se mais, goste-se menos das coisas que ele escreve – o Prata é merecedor, neste momento, de todo o apoio de nossa classe, classe em vias de extinção que é essa nossa dos cronistas.

Porque o cronista de jornal, mundano, aquele contratado para encher umas tripas semanais ou diárias de miudezas e reflexões sem especialidade, historicamente, ou é um aristocrata ou burguês-rico que não escreve para ganhar o de comer, ou é um plebeu enganado, um tolo que achou de aceitar, em troca da suposta liberdade de dizer o que quer sobre qualquer coisa, o atroz compromisso de viver para contar.

Aceitou, por heroísmo ou vaidade, pertencer a essa estirpe rara de jornalista que pode escrever “eu”, como dizia Drummond. Mas isso aí logo passa, e sobra a vil obrigação de sentar-se à frente do computador ou pegar do lápis para escrever qualquer coisa, a ser publicada sempre naquele mesmo santo dia, em troca daquele vintém que, quando dá por si, o camarada já não pode mais dispensar. Quando passa a ter que sustentar família, aí é que lascou-se tudo mesmo.

Não me deixa mentir o velho Rubem Braga, que tantas vezes escreveu a crônica só pela obrigação de ter que redigir qualquer bobagem, quando o certo era estar na roça, chupando caju ou caçando paca. E mais, estão aí de prova os grandes que já se enfiaram nessa maluquice que é a crônica para jornal: Machado, Bilac, García Márquez, todos enfim uma vezinha pelo menos já abominaram a obrigação de ter que escrever aquela maçada quando, na verdade, o certo era terem ficado calados, porque afinal lhes faltasse coisa que prestasse a dizer. Vá lá: não fosse pela obrigação, talvez não houvesse Braga, nem Drummond, Bilac, Machado, Márquez e muitas de suas crônicas maravilhosas. Mas talvez eles tivessem tido mais momentos livres, de descanso, ou apenas simplesmente mais momentos vagabundos na vida – e quem, leitor ou patrão, tem real direito a negar-lhes isso?

De sorte que nós do presente, nós jovens cronistas destes anos dous mil e poucos, nos solidarizamos ao colega Antonio Prata, e em seu nome requeremos a si uns bons meses de folga sem prejuízo de seus vencimentos, a fim de que possa dedicar-se à sua bebê em paz, sem ter que pensar em diabo de crônica nenhuma. Nós intercedemos por você, ó Prata, nós jovens cronistas mundanos de hoje, que em nossa imensa maioria não recebemos um centavo pelo que escrevemos de bom nem de ruim, mas que, talvez por isso mesmo, sejamos um dedinho mais livres, não só para cronicar sobre o que nos der na veneta, mas sobretudo para deixar nosso espaço em branco quando a vida se nos afigura dura, incompreensível ou apenas mais necessária do que a escrita. Nós cronistas, colega Prata, que, como você, iremos todos no final das contas parar na mesma vala comum, que é a lata do lixo ou o esquecimento, ou (dá na mesma) n’algum livrinho para o limbo dos anais que um dia – não é certo – alguém no futuro distante terá interesse em etnografar, para mostrar como se usava pensar nesta nossa epoquinha absurda e remota.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

Anúncios