Decorria o ano da graça de 1996. Quinta-feira à noite. Estádio Octávio Mangabeira. Chovia CÂNTAROS naquele 20 de junho, uma noite tropical típica deste mistério em forma de clima que é o inverno baiano. Não havia capa, guarda-chuva, agasalho que pudesse evitar o ENCHARCAMENTO MORAL de cada um dos presentes. Eram 35 minutos do segundo tempo. Olhei desanimado para meu pai, que posicionava a mão direita à frente da careca molhada para tentar enxergar o ataque do Bahia que alcançava o gol da Fonte das Pedras. Tiro de meta. Ele balança a cabeça, e vira-se para o outro lado. No placar do Dique, Bahia 1 X 1 Poções. Precisamos de dois gols para alcançar a final [no domingo tínhamos levado um COCO de dois a zero no sudoeste baiano]. O velho, agora com a mão esquerda, tira o excesso de água acumulada no bigode – que deixaria de usar pouco depois – olha para mim fixamente e fala, com a voz mansa:

– Ainda dá.

Neste instante, outro senhor – igualmente calvo, identicamente bigodudo – desce de forma acelerada as arquibancadas tentando aproximar-se ao máximo do banco de reservas, e, abruptamente, debruçado quase caindo sobre o parapeito da arquibancada, solta um grito descomunal, que irrompe o barulho da chuva, ganha eco, atravessa fosso, pista de atletismo, sai pela FERRADURA do estádio, sobe a rua do Paraíso, atravessa o Engenho Velho de Brotas, faz a volta pelo Dique, atravessa o semáforo em frente ao 5º Centro de Saúde, assusta os mortos do NINA RODRIGUES, circunda o Jardim Baiano, passa em frente a UNIMAR e eclode em toda a cidade:

-DEVOLVA MEU BAHÊÊÊÊÊÊÊAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

O brado, muito mais retumbante que aquele grito XOXO das margens do rio que virou posto, era a CANALIZAÇÃO de toda revolta contida em face [se você leu FEICE, pare aqui] dos últimos DOIS ANOS tricolores. A saída da MÚMIA MARACAJIANA que dominou o clube a MÃO DE FERRO nas últimas duas décadas mostrava-se pior que a EMENDA. Escapamos da segunda divisão na BACIA DAS ALMAS, e pelo segundo ano consecutivo, estaríamos fora da final estadual, com direito a TAMANCADAS históricas do Galícia que nos impunha um tabu, no mínimo CONSTRANGEDOR, de duas temporadas sem vitória frente ao Azulino.

Naquele grito – com todo o respeito ao MÍSTICO Poções de Fafá, Fofão, Messias e Liedson – estava a revolta não apenas por estar sendo ALIJADO de mais uma contenda pelo caneco estadual por uma equipe briosa, de algum talento e pouca tradição fora do Sudoeste baiano. Estava o sentimento, latente, pulsante de perceber que o Bahia –- aquele do branco Oxalá, do azul de JEZEBEL, do TRICOLOR COLAR — estava esmaecendo, dissipando, dissolvendo na chuva.

Não era pelos abusivos DEZ REAIS do ingresso, pela cerveja quente do Bar 7, não era pelos 5 X 2 do clássico três meses antes com show de ADOÍLSON, nem pelas caneladas de MISSO na lateral esquerda. Era por perceber que o Bahia transmutava-se em algo que não condizia com sua história democrática. Um clube que não levava a campo a capacidade de resistir e lutar do baiano, qualidade que fazem do 2 DE JULHO uma data histórica de MAGNITUDE superior ao sete de setembro. Um clube cada vez mais fechado em torno de um grupo que entendeu que deveria tomar para si uma agremiação que faz parte da vida do povo.

Não deu. O empate persistiu e fomos eliminados naquela semifinal. Depois daquele jogo, nunca mais meu pai voltou ao estádio. Por opção, passou a torcer de longe, mesmo sendo sócio patrimonial, REMIDO do clube. Coube então a mim, o FARDO de ser o tricolor mais atuante do CLÃ, arregimentando novos torcedores entre os sobrinhos, indo ao estádio, catequisando namoradas, participando da vida do time à medida que o Bahia se fechava à sua própria torcida. Em campo, definhava com rebaixamentos e humilhações. A torcida, narcisista e apaixonada, contentava-se com recordes de público e alegrias ESPÁSMICAS.

DEVOLVA MEU BAHIA virou um MANTRA. Muito maior que DIRETAS JÁ, #OGIGANTEACORDOU, ou qualquer outro lema REFORMISTA da história desse país. Ele permaneceu por vinte anos, calou-se a cada chute de CABO LIMA que estufou as redes, tornou-se trágico no choro da William CABEÇO PEQUENO Andem, desesperado na passeata PÓS- CEREI-C, irascível nos passes errados de ANANIESTA, DEMENTE nos cânticos de OLÊ-LULÁ-PEREIRA, silencioso a cada gol perdido por NONATO MATADOR, lúgubre na tragédia de 2007, incontido a cada ano de JEJUM, inconformado na venda do MENINO GABRIEL, alucinado na reinauguração da Fonte Nova.

“Liberté, égalité, fraternité. E devolva meu Bahia” – disse Robespierre, antes da guilhotina. Do céu, Bob Marley cantou: Devolva meu Bahia, MUZENZA! [abraço pra galera da BAMAICA e da Kombi do reggae]. E aquele senhor que bradou pela volta de seu clube em 1996, enfim, teve seu pedido atendido. Meu pai pode voltar ao estádio. Existem suspeitas que eles são a mesma pessoa, lados da mesma moeda. Afinal, todo torcedor do Bahia, inconformado ou não, sempre acredita que AINDA DÁ. E se o Bahia voltou a ser da torcida, não existe mais nada que atravanque a GRANDEZA desse clube.

Quanta saudade de você, Bahêa.

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