Agora só sabia andar gritando pela rua aos que estivessem ou passassem que eram todos convidados para o seu aniversário de 40 anos, para comemorar os 30 de cachaça. Os amigos riam e as mulheres menos, com pena de quem o tivesse que carregar todo dia pra casa.

Quando estava mais ou menos sóbrio, trabalhava como taxista ou caminhoneiro, o que não parecia incorrer em anormalidade aos olhos dos habitantes da pequena cidade. Tinha um filho escondido mesmo sem ter outros legítimos que o fizessem bastardo.

Desde que sua mãe morreu, todas as noites liga o som do carro no meio da rua a hora que for e deixa o mundo tocando uma infinidade de arrochas e outras músicas de corno dos infernos porque além da cachaça tudo dói. Um incômodo de pessoa.

Mas uma noite, eu vi, uma noite ele virou Deus. Mentira, foi maior que Deus, porque veio a terra salvar Jesus ao invés de o enviar em sacrifício sem garantia de que ninguém ali tivesse condições de aprender a lição. Isso não é coisa que se faça, não é coisa de pai, muito menos de gente, muito menos de deus.

Era sexta-feira santa e os meninos da escola apresentavam a encenação da Paixão de Cristo andando de túnica por aqueles paralelepípedos frouxos. As senhoras, as crianças e alguns homens de muito bom coração acompanhavam em silêncio. Tinha quem chorasse. Passou um tempo, passou muito tempo, até chegar a hora em que Jesus carregava aquele peso sem fim de cruz e sem aguentar, caía.

Era para apiedar-se. Pois passando ali perto — ou talvez tivesse mesmo acompanhado toda a agonia — o bêbado livrou-se de quem estava na frente atrapalhando e correu para o centro da rua para ajudar Jesus a levantar-se. Vumbora, Jesus, vumbora!, gritou, segurando com uma mão o braço sagrado  e com a outra a garrafa de pinga.

Jesus, atordoado, desvencilhou-se, e outros depois vieram impedir a boa ação. O resultado foi a vida seguir sendo como a conhecemos.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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