Eu poderia ser sem essa cidade

as suas ruas exatamente tais

os seus carros na calçada, o seu tom

a gente que por ora me fita

Eu poderia ser sem qualquer

e estar com os fronteiriços, os continentais,

ou com os besouros da funda gruta

 

Eu poderia ser sem aquela moça

sua boca não é a única

nem seus olhos as últimas pontas

Eu também amaria aquela que passou no dia 23 de Março

entre duas seções da livraria e nunca mais

Eu também amaria a croata

que no frio chora porque não chego

 

Eu poderia ser sem esse cão

E evitaria despesas que nem posso mais ter

Eu me daria um sono maior, sem latidos na porta

Não sentiria a falta que me faz

ao ir com minha irmã, um dia na praia, longe

E não haveria a definitiva,

Para quando ele se for

 

Eu poderia ser sem esse poema

estaria na casa da moça, ou na rua junto ao cão

Tenho talento para goleiro

Tenho ganas para técnico de enfermagem

na minha cidade do interior

Eu poderia fazer no curso outro verso

Muito melhor, um que enfim nos acalmasse

Eu poderia estar em outros milhares

 

Mas como, se nem mesmo um deus?

Se ele, se há, que é tudo e mais

E já não é mais sem todas luzes,

sem aquela cor na amendoeira,

sem os pregos atrás do quadro

sem mim, no rincão do universo

com planos de ganhar uns mil reais

 

Veja, se de repente, eu for como o deus,

e o deus como eu

por poder e não ser,

por já não mais poder e ser

o que virá

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