Sobre esse rebuceteio todo dos protestos contra a alta do preço da passagem em São Paulo, apenas queria registrar – menos por conhecimento profundo do tema, mais por não tê-lo visto registrado em outra parte com a devida atenção – que já se quebrou o pau antes no Brasil por razão semelhante a essa de agora.

Bem antes dos vinte centavos de hoje, vinte réis a mais no preço do bonde levaram a população do Rio capital imperial a uma grita generalizada, que perturbou a ordem naturalizada das coisas. Isso foi entre dezembro de 1879 e janeiro de 1880, e o movimento ficou conhecido como Revolta do Vintém – que era como a moeda de 20 réis, a de menor valor à época, era chamada.

Bem antes dos trabalhadores e estudantes justissimamente indignados de hoje, o pessoal indignado daquela época – sobretudo quem morava longe para pagar aluguel mais barato, e que por isso dependia do transporte público para ir ao Centro ganhar a vida – não engoliu o aumento do preço da passagem, arbitrado da noite para o dia, desatrelado a qualquer melhoria na qualidade do serviço. E resolveu ir protestar no meio da praça, no meio da rua.

Isso porque bem antes do aumento injustificado de hoje – afinal, se por um lado R$ 0,20 significam menos que a inflação do último ano, por outro, se considerarmos a inflação acumulada em 20 anos, a passagem de ônibus em SP deveria custar R$ 2,16 em vez de R$ 3,20 – , o aumento injustificado daquela época caiu em desgraça entre o povo. Porque o acréscimo fora idéia da intelligentsia imperial, um subterfúgio safado para fechar o rombo das contas de D. Pedro II.

Dom Pedro II, bem antes que o Alckmin de hoje, mandou a polícia reprimir a revolta do povo. E bem antes que o Haddad de hoje, resolveu recuar e dizer que aceitava sim conversar com os revoltosos – mas só quando o pau já estava comendo e já era tarde demais.

Bem antes da polícia violenta de hoje, a polícia violenta daquela época desceu o sarrafo nos manifestantes – estimados em cerca de 5 mil, o que resulta em expressivos 2,5% da população urbana do Rio de então. E como inexistisse munição menos-letal, a polícia disparou balas de verdade mesmo contra o povo – morreram ao menos três – e atiçou ainda mais a raiva justa que o povo já sentia dela.

Sim, porque, bem antes do povo de hoje, o povo daquela época já torcia a cara para a polícia. Porque polícia afinal nasceu no Brasil menos para combater a criminalidade, mais para reprimir e vilanizar os costumes da gente comum. Polícia naquele tempo, bem antes de hoje, já servia no mais das vezes para enquadrar nos rigores da lei, conter, dispersar todo tipo de manifestação (política, social, cultural) que viesse do povo. E os policiais de então, bem antes que os de hoje, eram quase sempre gente comum convertida, a troco de ridícula paga e nenhum preparo, em máquinas de bater, prender e matar semelhantes seus.

De maneira que, bem antes das barricadas, das vidraças quebradas e das civilizadíssimas bombas de vinagre de hoje, o bicho pegou – e feio – naquela época. O povo tacou fogo nos bondes, arrancou os trilhos, e esfaqueou os pobres dos burros (sempre sobra para eles!) que os puxavam gentilmente todos os dias. Atacou a polícia, é verdade – mas pior que essa violência era a violência original, que o Estado cometia contra eles todos os dias.

Bem antes do eventual proveito político que pessoa ou partido possa retirar das manifestações de hoje, houve quem retirasse proveito político da manifestação pelo vintém de então. Os republicanos utilizaram-se dos protestos para ganhar força – é óbvio. Muito embora, bem antes de hoje, quem participou de fato daqueles protestos não o tenha feito por motivação político-partidária anterior aos vinte réis, porque eles faziam – como fazem os vinte centavos de hoje – diferença mesmo.

Aí, quando viu que a coisa tinha azedado de vez, bem antes que a grande imprensa conservadora de hoje, a grande imprensa conservadora daquela época não gostou. Mas sobre isso, à guisa de preservar o amigo leitor de algum sentimento menor que porventura persista em meu espírito, abstenho-me de falar – dou voz ao historiador Ronaldo Pereira de Jesus: “A imprensa mais conservadora falava na convocação de mobilizações de protesto, apelava para a manutenção da lei e da ordem, lembrava que o governo havia tolerado sempre a manifestação de “representações respeitosas” e, finalmente, pedia para que os descontentes, ao invés de protestar, direcionassem sua energia para a eleição de bons políticos que se ocupassem em defender os verdadeiros interesses da maioria da população.”

Qualquer semelhança não será mera coincidência, senão prova inconteste de que vivemos no Brasil, no mesmo Brasil de há mais de cem anos atrás.

Aliás, minto – há sim uma diferença: ao contrário do professor de história e da estudante de direito de hoje, quem liderou a Revolta do Vintém desde o início foi um jornalista – que tinha aliás um sugestivo sobrenome: Trovão. Reputo como coisa triste o fato de já não ser primazia de nossa profissão liderar semelhantes protestos, colegas. Mas, para já, não polemizemos: embora para alguns tenha sido preciso esperar até que as balas da polícia pegassem nos olhos de colegas da imprensa, é sempre tempo de posicionar-se do lado certo.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos. O texto de hoje é dedicado aos amigos Daniel Cabral  – a quem agradeço por ter-me pautado o tema – e Igor Soriano – que pediu uma nossa visão dessa história