Eu fiz, eu desfaço. O buquê de muitas e muitas flores que dei à minha mãe em seu dia precisava de nova ação: a de retirar-se do centro da sala. Suas flores e folhas murchavam, fora algumas que misteriosamente ficam em pé contra tudo. Estas eu cortei com a tesoura e alinhei na quina da mesa, com cautela. O mesmo sentimento que me fez esperar minha mãe sair com minha avó nesta manhã, coisa difícil com esses dias de chuva, para também cuidar do desfecho.

Não sei por que ela mesma não havia dado o fim às flores, minha mãe que é tão ansiosa por ajeitar ou renovar o que se desloca ou o que se despede. Aliás, sei. Nunca lhe entregara nenhuma e riu-se muito ao me ver na porta, tampando o meu peito e minha boca em um buquê de gérberas. Não conhecia o tipo, em minha desatenção de mundo, mas as achei muito bonitas na floricultura e isto era o bastante. Inclusive me decepcionei ao saber o seu nome. Gérbera – é muita força para algo que só carrega luz. Mas pesam, ao serem cinquenta, e crescem ao pousarem em uma mesa de jantar, transmutando um jardim inteiro. Minha mãe comemorou e mimou as pétalas, e aos que nos visitaram por estes dias as apresentava, com um acréscimo: “Temos um romântico na casa”.

Hoje foi o fim das flores, e o meu dever era tirar a euforia de antes em uma tranquilidade sem sons. Busquei um saco grande para as flores que não ficariam. Ao voltar com um, olhei mais a fundo o buquê. Por mais que eu tentasse, não havia mais nenhuma a que se pudesse salvar. Sacudi as pétalas completamente murchas, e o que vi se mostrar foram os polens. Ainda existia uma descoberta. Os anatômicos da flor podem explicar a simetria e a pulsão que eu vi, ao desfazer os grãozinhos na minha palma aberta, mas não quero ouvi-los agora. Já tenho e guardo o meu espanto. Retirei o pólen de todas as flores e as salpiquei na terra do canteiro da varanda, com qualquer esperança ou crença.

O saco grande estava em minha mão de novo e de novo o larguei. Não poderia colocar no plástico as flores com os caules molhados. Fui à pia da cozinha e retirei o buquê do vaso de vidro. Subiu um odor que era o mesmo de um peixe há muito fora do rio, e me perguntei se não era o mesmo cheiro de todas as coisas que perecem. Nos caules desbotados, pequenos musgos se encaixavam ou miniaturas de coisas que ninguém nunca saberá de onde vieram.

Era a morte, isto era a morte, que estava ali, em meus dedos. Veio uma onda de ternura e uma gratidão pelo que se acaba, deixando os vivos a lhe cuidarem e a lhe jorrarem água de torneira. Eu me vi velhinho, dizendo com sorriso de velhinho “as coisas passam, que se há de fazer? as coisas passam, que grande perfeição”, como se fossem as duas frases o mesmo significado. O mesmo cheiro: talvez também todas as coisas tenham o idêntico cheiro de chegada.

Mesmo sendo o maior saco da casa, o buquê ainda conseguiu ficar com suas folhas, ramas e pétalas soltas para fora. Parecia que era novamente um buquê, com outra embalagem, para se entregar a outro. Alguém há de se alegrar em vê-lo encostado ao balde do prédio e vá apanhá-lo. Ou ainda que não o toque, pode alegrar-se pela lembrança da flor – a flor embalsamada para os tempos que se repetem e se repetirão.

Saulo Dourado escreve às segundas, quinzenalmente

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