Com aquela mão de dedos finos ele suspendeu a agulha da vitrola. Tocava Chopin e o que era água inundando a sala, virou silêncio que incomodava.

– Pra quê Chopin se você não gosta?

– Você também não descia na minha garganta, espinha de peixe, e hoje estou aqui, feito prédio sem viga.

– Você e suas metáforas. Um exagero só.

– “Um relógio de parede numa velha fotografia – está parado?” Quintana remexe minha alma, sabia?

– Diga logo qual o propósito disso aqui. Essa casa parece um cavalo solto vindo na minha direção, enlouquecido, a dois metros de me atropelar.

– Ahá, olha você com suas metáforas! Vida é metáfora, João.

Ele tinha na mão uma taça com suco de maçã.

– Me incomoda você gostar de suco de maçã a essa hora da noite enquanto eu tô aqui, caubói na mão, louca pra tomar uma garrafa inteira de qualquer coisa que desça goela abaixo queimando o que ainda resta de nós dois. Mas, não sei por que porra, eu não consigo.

– Você vai conseguir, lembra que te disse pra não ouvir música até tarde da noite? Eu te dei um caderninho com tudo o que era preciso ser feito pra você queimar isso aí que você diz que tem por dentro. Eu não acredito nessa coisa gigante, não.

– E o que é gigante que você acredita? Se você não acredita em Deus, em Tarô, em Astrologia, em Destino, na Fé, você não acredita nas pessoas, você desacredita no amor. Você só acredita na porra do seu umbigo, que ainda por cima deve estar sujo.

– Olha o caderninho, o caderninho diz que não se pode acabar com o outro em bases chulas.

– Vá se fuder, João. Agora vá se fuder com essa parcimônia toda, bem devagarinho, pra que a dor cubra até os cotocos de unha que você ainda tem, roedor de unha miserável. Roedor de alma!

– Então era isso. Mais do mesmo. Vou embora.

– Não, João. Sabe o que é? Lembra que te falei que um dia ainda acharia o que te dizer pra depois dar o meu tiro de misericórdia nessa desgraça toda? Passei a amar Adélia mais ainda.

– Adélia?

– Prado. Chama “Amor Violeta”:

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

– Vou embora.

Bateu a porta, sem titubear.

– Por que mesmo que eu amo esse filho-da-puta?

Carmezim escreve às quartas-feiras

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