Era um sábado de 2008 quando Carla Bittencourt escreveu esse texto, e hoje, como sabemos, é sexta-feira, a da paixão.  Um dia que Clarice amava, certamente.

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Sentada numa poltrona de couro no meio de um estúdio de TV, a flor de lis está murchando. O olho rasgado, a língua prresa, o jeito sério; ela está com raiva, ela está cansada, mas tem muitos amigos. A mão esquerda aberta como a própria flor do seu nome, mas sem jeito, defeituosa. Uma mão nervosa, para lá e para cá. Uma mão de incêndio.

Ela futuca a enorme bolsa, de onde tira um maço de hollywood e vai acendendo seus cigarros, initerruptamente. Clarice Lispector deu essa entrevista para a TV Cultura pouco antes de morrer. Eu convoco todas as adolescências de livro debaixo do braço, de drama, de frases não ditas e de delírio inocente para assistir essa mulher muitas, muitas vezes.

O clima é irônico, um teatro que Clarice sempre soube montar muito bem. Quando fingia não saber o que significava, quando alfinetava seus críticos cabeçudos ou aceitava o chá das cinco com as menininhas que entendiam o amor despedaçado em uma barata.

Ela tinha acabado de escrever A Hora da Estrela [que virou filme lindíssimo de Suzana do Amaral, com Marcélia Cartaxo e José Dummond. Pena que, apesar dos prêmios em Berlim, a fita não ganhou reedição nem foi gravada em DVD].

Nessa entrevista, Clarice fala da sua história de inocência pisada e miséria anônima, uma novela com 13 nomes. “Ia serrr engrrraaaaçado morrrrrer atrrropelada por um táxi depois da carrrrtomante terrr dito tantas coisas boas”, zomba do destino que guardou para Macabéa, a moça que comia cachorro-quente e ouvia a rádio-relógio. Que achava lindo prego e parafuso.

Clarice é minha redenção permanente. A felicidade guardada para depois de três aulas de química. O repórter, coitado, tenta extrair literatura de uma exausta nordestina da Ucrânia. Para cada pergunta elaborada, recebe de volta um “E eu sei?” ou, sem pudores, “Essa eu não querrrro responderr”.

Faz tempo que eu descobri, Senhor Repórter, que a graça está no mistério. Quem não entende o que está por dentro de nós pode fazer crítica severa. Pode ainda fazer como Henfil, que enterrou Clarice no cemitério do Caboclo Mamador, aquele, onde os zumbis alienados vagavam em plena ditadura militar.

Ele mesmo confessou que se arrependeu do velório. Sabe o que é, Henfil? Clarice é política sim, mas é política interna. Ou então o que são feliz aniversário, a pirraça com os livros de Monteiro Lobato, a atualidade do ovo e da galinha, o búfalo no zoológico, a menor mulher do mundo?

E eu sei?

E porque hoje é sábado e a internet é um mundo, aqui vai um pedacinho de sonho para nós:

“Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho. De tarde, a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento, sábado era a rosa de nossa semana. Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde”.

Carla Bittencourt é a convidada especial desta sexta

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