Agora virou um tal de celebrar centenário de gente morta que só.

A palavra, aliás – centenário – , existiu para mim muito antes de eu imaginar que pudesse significar uma centúria de anos. Era só um nome qualquer de rua, na verdade da avenida de que eu mais gostava quando era pequeno, porque tinha túnel, e eu adorava passar dentro do túnel, pedia a meus pais que desviassem o caminho só para passarmos dentro do túnel, do túnel acanhado que meu olhar de menino acreditava ser imenso e interminável túnel.

Centenário então ficou sendo nome próprio até meus mais ou menos sete anos, até o dia em que, de passagem por outra cidade – Ilhéus, ou Itabuna talvez – demos pela frente com uma engraçada avenida Cinquentenário. Desparafusando o sufixo, caiu-me nas mãos um imprestável numeral cinquenta. Então caí na besteira de repetir a operação com a palavra centenário, e ela nunca mais tornaria a ser só um nome aleatório de alameda.

Mas queria falar mesmo era dessa mania de gastar papel com centenário de famoso morto que o jornalismo brasileiro achou de pegar. Não que se deva deixar de homenagear quem quer que seja; é só que, sendo jornalista, a gente sabe o mórbido que é listar quem são os mortos que farão cem anos no ano corrente, e ficar contando os dias para chegar o aniversário do morto, e então publicar a matéria, carregada nas tintas ou na criatividade duvidosa, não raro aquela feita há séculos e estocada na gaveta, quando não recauchutada da efeméride passada. Pior é saber que todos os nossos infaustos colegas de imprensa farão a mesma coisa, e que por fim se entulhará o noticiário nacional de uma enxurrada de matérias quase todas meio iguais.

Tenho mais pena dos mortos que tiveram a infelicidade de nascer no segundo semestre, que são os que sangram mais tempo nas páginas dos jornais e revistas, nos especiais e reprises de tevê. Pois recordem-se vocês quanto se inventou de assunto sobre Jorge Amado, nascido em agosto, no ano passado. Que dirá de Nelson Rodrigues, também ele agostino, melancolicamente tornado em mais uma das unanimidades burras que ele próprio abominara. Gonzagão (coitado, foi nascer em dezembro!) foi metido em mil e uma prosápias – incluso numa assinada por este velhaco aqui, a qual teria passado muito bem obrigado sem que fosse preciso tocar-lhe no nome. Aplausos ao velho Rubem Braga, homem todavida precavido: escolheu nascer em janeiro, assim pelo menos falam logo de uma vez o que dele tiverem a falar, e deixam-no em paz no restante do ano. Mas o melhor de todos foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que mesmo depois de morto não poderia perder a piada: enquanto os colegas de geração completam cem, ele vai e completa 90; sarro puro.

Fico daqui pensando em quem serão os mortos centenários de daqui a pouco, em quem os de daqui a cem anos. Fico ademais prometendo a mim mesmo que, no jornal que um dia haverei de criar – na vida ou na literatura – , jamais se tratará centenário nenhum por efeméride, e sim a outros e mais democráticos números, como 47, 83, e mesmo o competitivo 99 (ah, com este daremos furo atrás de furo em toda a mídia centenarista!).

Ou então, bem melhor: só homenagearei centenários de grandes homens que o respeitável público não teve a sorte e a honra de conhecer. Como a buonanima de Franceschino, batizado Amedeo Giovanni Sebastiano Sangiovanni – o meu vovô Chico, famoso por erguer-nos nos braços, a mim e a minha irmãzinha, quando corríamos na direção de sua voz exclamando piccolini, de lá do final do corredor escuro da casa fria da rua da Itália, município de Poções – Bahia.

E não escreverei muito; apenas que tenho tanta pena de não ter conversado mais com você, vovô Chico, porque tinha vergonha de não entender direito o italiano misturado com português que você falava – depois, quando aprendi a falar italiano, foi tarde, já não havia mais você para conversar. E que hoje não lhe cultivo como nenhum mito, mas como um homem simples e bom, com quem até hoje sonho de tempos em tempos, mais nos tempos em que a vida se me afigura difícil. E que sinto tanto orgulho por você ter cruzado o oceano e ter vindo viver aqui, até por aqui morrer, e no final da história ter podido te ver ser aplaudido de pé por todos na rua, no cortejo da casa até o cemitério.

Eis então meu viva, vovô Chico, por seu centenário amanhã, por você ser uma lembrança boa daquele tempo bonito em que eu não sabia o que centenário queria dizer.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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