Um homem todo encapotado, com a boca cheia de comida mastigando meio aberta, bêbado, contente, percebeu a senha involuntária do contato visual. E aí, pra variar, ele parou perto de mim.

“Eu amo Londres”, ele disse em inglês. “Eles pedem desculpas, eles dizem obrigado. Eles são legais com a gente, milhões de pessoas estrangeiras vêm para cá e eles nos tratam bem. Eu amo Londres. Londres, MUAH” (soltou um beijo com a boca cheia de comida, sem, impressionantemente, deixar nada voar. Já devia estar bem sólido).

Isso foi na saída do Beehive, o pub tradição de Brixton, onde toda a velha guarda jamaicana e os jovens descolados que já começam a povoar o bairro se reúnem para paqueras mútuas. Isso foi depois de jantar com amigos no Mercado de Brixton, foi depois de voltar de Oxford, foi depois.

Muito se poderia dizer sobre as ilusões do estrangeiro apaixonado por Londres. Seria bem possível que ele mudasse de opinião com o passar do tempo, ao menos sobre o bom tratamento dos estrangeiros, talvez. Com o passar do tempo, veja bem, porque em sete meses não pude reclamar de ter sido destratada. De qualquer modo, seja qual for o destino do nosso comilão em Brixton, desconfio que o “Londres, MUAH”, estaria sempre lá.

Minhas despedidas de Londres foram silenciosas que só, porque a saudade, bicho vivo e faminto que é, fica mais robusta a cada pensamento sobre como vamos sentir saudade. É quando se diz “já estou sentindo saudades” e aquele é o ápice da obesidade do sentimento. O maior peso da saudade é quando ainda estamos no meio de ir embora. Depois disso ela entra naquela dieta forçada chatíssima para emagrecer, mas aí já é outra coisa, questão de saúde do coração.

Sei que deve caber alguma reflexão definitiva sobre o tempo que passei na ilha do Norte, mas para essas coisas já existe Gil. Escrever sobre o que acontece enquanto estamos fora é um prato cheio, e agora, mesmo sem querer, entrei na dieta.

Sorry I left you, London. Thank you so very much.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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