A ideia de restringir a prática de skate na praça Roosevelt me parece vir de uma concepção distorcida da democracia.

Não é um bem comum que se está defendendo, mas o bem de um grupo em nome (essa é a distorção) da coletividade. A isso somem-se uma série de preconceitos com o esporte, associado com vandalismo e drogas.

Os não-skatistas que não querem skate na praça assumem assim o papel de porta-vozes de todo o resto — não-skatistas que se abstêm da discussão, não-skatistas que não frequentam a praça e não-skatistas que a frequentam, mas a quem o skate não incomoda.

Acuam os skatistas e os transformam em minoria nociva.

Enxergo que é em nome de uma certa “normalidade” invisível que essa “defesa da praça” atua.

Normais seriam os que não andam de skate. Invisível porque não é possível traçá-la na natureza: é mera suposição do próprio grupo.

É o mesmo mecanismo pelo qual opera a noção de “gente de bem”. Gente de bem é toda aquela gente que não aparece (os canais de mídia são parte importantíssima do processo) como protagonista de situações tidas como perturbadoras da norma. Gente de bem é o assaltado dentro de seu carro. É a velhinha em cima de quem o skatista, durante manobra sobre o corrimão da praça, quase cai. É o passageiro que fica no vagão de trem paralisado enquanto outros descem para protestar contra inaceitável reincidência de defeitos técnicos.

Você entendeu: gente de bem é aquela que não se insurge e não se pergunta porque os outros se insurgem. Insurgência é roubar, ainda que seja crime; é praticar um esporte que não depende de espaços pré-destinados (que não depende da prefeitura para existir); é tentar pelos poucos canais possíveis reagir à injustiça cotidiana.

Não acho que haja defesa simples para cometer crimes, colocar os outros em risco, depredar patrimônio público. Mas acho que deve haver mais reflexão e entendimento sobre isso.

Por que roubamos? Por que quebramos trens? Por que colocamos velhinhas em risco?

Como exemplos genéricos, essas três perguntas não são equivalentes. Muito menos o são os casos específicos, reais ou possíveis, a que elas se referem. Há quem roube por desejo de matar. Mas há também quem não suporte mais que o transporte público seja uma piada, uma fachada, uma mentira, um perigo e uma humilhação. Há uns e outros. É preciso absorvê-los, e não absolvê-los, todos. Sob o risco de não haver sociedade.

Trabalhoso? A realidade não é plana como querem as gentes de bem. E a democracia não é a simples soma das vontade da maioria — digo, da maioria que aparece na televisão.

Diego Damasceno escreve às terças

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