– Barcelona.

– Como é que é? Seu nome é Barcelona?

– Não escutou o que disse? Bar-ce-lo-na.

Esperando o ônibus das cinco e um pouquinho da tarde, a chuva cantarolava no teto do ponto. A rua tinha poças de contar nos dedos – uma, duas três, quatro, quatro poças d’água alegres com os pingos fazendo-lhes cócegas. Barcelona tinha a cara emburrada.

– O ônibus das cinco sempre demora, ele retomou o fio da conversa. Demora tanto que se a gente não conversar, o tempo come nosso juízo, fica quase como ferida ruim, avançando, avançando.

Aquilo não era jeito de abordar uma garota. Barcelona tinha as pernas cruzadas, saia jeans, tênis verde, cabelo cortado na altura dos ombros.

–  A cidade tá triste, né? Quando chove assim a cidade fica triste.

– Acho não. Gosto de chuva, muito mais do que conversa fiada em ponto de ônibus.

Leopoldo achava que a cidade ficava até mais gostosa com a chuva, mas, tá vendo, do que adiantou tentar poetizar com a chuva e a cidade?, interrogou a si próprio. Se tivesse dito o que realmente achava teria chegado mais perto do alvo, teria derretido o gelo, alcançado o dentro da esfinge.

– Barcelona…

– Hum.

– Não disse antes, mas tenho um presente pra você.

– Se é pra dizer logo não demore.

Demorara um bocado mesmo: a lembrancinha estava na mochila desde o segundo dia que sentara no ponto de ônibus e Barcelona aparecera. Talvez uns três meses atrás. Mas o rosto duro de Barcelona, sisudo, afastara a aproximação.

– Tome, faça bom proveito.

Era um guarda-chuva azul-e-grená.

– Como você adivinhou? Ela perguntou.

– Lá vem o seu ônibus, ele disse.

Barcelona levantou e foi em direção à porta. Olhou pra trás, a cara ainda séria. Quando o ônibus arrancou, deu um banho em Leopoldo ao passar em uma das poças. Ele sorriu. Barcelona, através das janelas, vendo a molhação, inclinou a cabeça para o lado num gesto de compaixão.

Quem estivesse de fora juraria que foi mais que compaixão. Foi carinho, quase gostar.

Carmezim escreve às quartas-feiras

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