Folga, nego

branco não vem cá.

Se vié

O diabo há de levá.

Folga, nego

branco não vem cá.

Se ele vié

pau há de levá

[Canção de Palmares]

 

Ano de 1678. Recife. Missa de Ação de Graças na igreja matriz: O governador de Pernambuco, Aires de Sousa Castro, ajoelha-se no genuflexório à frente do trono do Santíssimo. Ao seu lado, com uma capa vermelha de seda, repete o gesto GANGA ZUMBA, chefe da federação dos Palmares.

Dobram os sinos, alvoroço de artilharia e soam os tambores: o governador outorga a Ganga Zumba o título de comandante de campo, e em prova de amizade adota dois de seus filhos menores, que receberão o honroso sobrenome Sousa Castro. Celebra-se um acordo de paz que deverá garantir o desalojamento de Palmares dando liberdade a todo indivíduo nascido ali a partir daquela data. Em contrapartida, negros fugidos marcados a ferro em brasa que ali se escondem deverão retornar aos seus proprietários.

– Mas eu não me rendo – diz Zumbi, sobrinho de Ganga Zumba.

Zumbi fica em Macacos, capital da capitania de Palmares, e ignora os decretos que lhe oferecem perdão.

Dos trinta mil ocupantes de Palmares, apenas cinco mil acompanham Ganga Zumba. Para os outros é um traidor que merece o esquecimento.

Não acredito nas palavras de meus inimigos. Meus inimigos não se acreditam nem entre eles – diz Zumbi.

***

“O Brasil não vai abrir mão da Base Naval de Aratu”. Foram essas as palavras do assessor especial do Ministério da Defesa, José Genoino, em relação ao imbróglio envolvendo a ocupação do território onde atualmente está localizado o quilombo Rio dos Macacos, em Simões Filho- BA. A declaração data de três meses atrás – antes, portanto da condenação do, agora, ex-assessor Genoíno pelos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa através da Ação Penal 470 julgada pelo STF.

A situação segue tensa e indefinida na região que foi reconhecida pelo INCRA como quilombo. Há uma decisão judicial que exige a desocupação por parte dos quilombolas, mas a Defensoria Pública da União recorreu. Este ano foi necessário que o Ministério Público enviasse recomendação à Marinha de atenção à legislação, coibindo assim as práticas recorrentes de constranger física e moralmente a comunidade.

O impasse prossegue sem prazo para definição.

***

Domingos Jorge Velho é capitão de mamelucos de São Paulo. Fora contratado no ano de 1694 pela coroa portuguesa em Recife para arrasar Palmares. A recompensa inclui terras, negros, anistias, quatro hábitos de ordens religiosas e trinta graus militares para repartir entre seus homens.

A população apoia a empreitada, crente que são os negros culpados pela falta de braços para os engenhos e também das pestes e secas que assolam o nordeste, porque Deus não enviará saúde nem chuva enquanto existir o quilombo dos Palmares.

E organiza-se a grande cruzada. De todas as partes acodem voluntários, empurrados pela fome, em busca de ração segura. Esvaziam-se as cadeias: até os presos se incorporam ao maior exército reunido no Brasil até aquela data.

Vários dias dura a batalha. Os canhões aniquilam a tríplice muralha de madeira e pedra. Negros tentam fugir e escorregam no vazio pelos despenhadeiros; e muitos se atiram escolhendo o precipício.

As chamas devoram Palmares, tal qual uma favela paulistana. A gigantesca fornalha arde durante toda a noite. Queimar até a memória, anunciam os vencedores.

Zumbi, ferido, consegue escapar. Morrerá um ano depois, apunhalado pelas costas pelo amigo Antônio Soares. Sua cabeça, na ponta de uma lança, será exibida em uma praça de Recife para que os escravos aprendam que Zumbi não é imortal.

O propósito dos algozes de Palmares não obteve sucesso. Zumbi está mais vivo que nunca, mesmo três séculos após seu assassinato. Seu espírito de luta permanece eterno e assim será até que todos Ganga Zumba, Domingos Jorge e Antônio Soares sejam derrotados.

OBS: Trechos históricos referentes a Palmares adaptados do Volume Um de “Memórias do Fogo” de Eduardo Galeano.

Alex Rolim escreve às quintas

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