Eles estavam lá, sempre estiveram, mas como nunca tinha visto tantos de tão perto, era como se não existissem. Amontoados, sujos, alheios, zanzando daquela forma de ser a coisa mais agoniada do mundo.  E mesmo querendo acreditar que todas as formas de viver são possíveis, não existindo ainda prova da superioridade de uma sobre a outra, dá uma tristeza danada. Dá vontade de fazer alguma coisa, mesmo que seja uma coisa qualquer.

O prefeito do Rio e os seus decidiram que o jeito é interná-los à força, para que parem de fazer com que a gente se sinta assim. Como se da segregação pudesse nascer alguma forma de cura. E ao ouvi-lo dizer isso só me lembrei de um senhorzinho pequeno de bochechas de gnomo que repete há mais de vinte anos: 1. o aprisionamento, o que faz, é criar novos problemas. 2. As pessoas são sempre, inevitavelmente, as suas escolhas. 3. O problema grande não é a droga, é antes a miséria, essa coisa que ninguém se incomoda muito em dar fim.

Outro dia um amigo confessou corajosamente que viu o filme dos espíritos. E que um certo atormentado só se livrou da dor de todas as angústias quando decidiu pedir ajuda para se salvar. Foi quando os seres elevados vieram, brancos e brilhantes. Uma superioridade que não pode prescindir do orgulho de ser chamado, foi o que pensei e disse. E ele respondeu com um conhecimento de outros tempos: nunca vai adiantar ajudar alguém que não quer ser ajudado.

Como de outras vezes, só vim aqui mesmo para dizer – tenho nenhuma aproximação de resposta. É quase uma confissão, como as que se fazem aos padres – e eles receitam aves marias, como forma de devolver os pensamentos às mãos do mundo.

É isso, por hora. Nos jornais, anda a notícia de que nossa tão eficiente polícia irá usar choque e spray de pimenta para conter dependentes de crack. Mais um degrau abaixo na lama visguenta do umbral. Talvez seja a hora de apelar aos espíritos superiores.

Tatiana Mendonça escreve às sextas e promete que tentará fazer com que essa frase seja verdadeira

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