Olha, eu não deveria ser obrigada aqui a invocar Carlos Drummond de Andrade novamente. Seu conselho, ou melhor, advertência, já foi dito e repetido o suficiente para que não houvesse qualquer motivo, razão ou justificativa para ignorá-lo. E no entanto aqui estamos. Mas amor é palavrinha fácil, dada e escorrega da boca feito baba de cachorro basset. Dizê-la também parece deixar-nos mais amáveis.

Deve ser por isso que “mais amor”, “muito amor”, “só amor”, “puro amor” virou o substituto de coisas mais simples como “gostei”, “legal”, “bacana”, “que massa”, “que bonitinho”. Faço aqui a mea culpa, só percebi quando já era tarde demais. Mas me assaltou uma vontade esquisita, retrô ou hipster, como quiserem, de voltar a dar às coisas os nomes que elas têm.

Tampouco estou mais tão preocupada em provar para Criolo ou quem quer que seja que “existe amor em SP” ou seja onde for. Como se diz lá no meu interior, de ter até tem. Mas é só um pouquinho, o suficiente para nos mexermos em defesa da pequena parte que nos toca das coisas. Não sei se foram os movimentos de “mais amor” que de fato impediram que a cidade elegesse mais um candidato conservador e retrógrado como prefeito. Fico feliz que tenham feito sua parte. Mas há mais por se preocupar, há muito mais por fazer. Ainda parecemos nos importar pouco com a militarização, a “truculentização” de São Paulo. Importa pouco também, aparentemente – porque todo mundo tem medo do PCC, do pobre, do outro, de tudo -, o tipo de chacina patrocinada pelo Estado que anda acontecendo na capital e no Estado.

Eu e São Paulo temos uma relação honesta e aberta. Eu não a amo e ela não me ama. Ambas sabemos disso e sinto que nos queremos bem. “Quero bem a São Paulo”, vou começar a pichar isso no minhocão. Não é nada contra a expressão do sentimento, mesmo. E no começo, admito sem vergonha que todos os “mais amor, por favor” e “o amor é importante, porra” me foram muito bem vindos, porque se tem uma cidade que precisava, pensei eu, de amor, era São Paulo.

Mas de amor só ninguém sobrevive, amigos. Nem namoros, nem famílias, nem cidades. São Paulo, e francamente, o resto das cidades do Brasil, precisa de cidadãos. Que eles as amem é desejável, mas não necessário. Que façam algo para torná-la habitável, justa e tudo o mais que se considera importante, sim.

É por isso também que quando Ivete Sangalo, a mainha do lotação, diz que adora andar de ônibus à noite na orla de Salvador – e gosta mesmo, sem dúvida – nós aqui do Purgatório achamos que é de fato prova de muito amor -e de pouca cidadania. Ora, será que Ivete tem obrigação de falar algo sobre as dezenas de problemas do transporte público, da orla, da administração de Salvador? Não tem. Ninguém tem. Basta colocar uma foto com corações no Facebook que tá tudo certo. Existe amor em Salvador, é claro. Escorre pelas ladeiras feito dendê ou xixi no Carnaval, precisa ver só. E deve ser por essa razão ainda, que como bem define Wilson Gomes, a “competição pelo amor à Bahia” ainda decide eleições, na capital como no interior.

É tanto amor ultimamente que a gente fica até tonto. Tanto, que a droga do amor já não deve ser mais o ecstasy, e sim o Facebook. Se você não amou apaixonadamente nada do que comeu, viu na rua, leu numa placa, fotografou ou visitou nas últimas semanas, o que tem feito da sua vida? Meu nome é Camilla e estou há cerca de 15 dias sem amar nada, exceto pela minha família, namorado e amigos. Andei exercitando gostar das coisas, achar outras bonitas, desaprovar algumas e esbravejar contra outras mais. Não rende atualizações de status nem hashtags populares, mas recomendo nem que seja por obediência a Drummond. Ele não nos aprovaria facilitando com a palavra amor.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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