Consta que Stendhal confessou haver escrito um de seus livros para cem leitores. Parece pouco, talvez o seja, porém é mais que suficiente para compelir o autor a empreender o melhor de si, engendrar as ideias com o máximo de clareza e os argumentos com a força da persuasão. O próprio Stendhal previu que só teria algum reconhecimento após sua morte, o que de fato aconteceu. Era um homem a frente do seu tempo.

Eu nada tenho a ver com Stendhal, a não ser o fato de sermos aquarianos do primeiro decanato – o que não significa bulhufas, pois não creio em astrologia. Compartilho, no entanto, do compromisso com meus poucos e estimados leitores. Este encontro semanal certamente é mais proveitoso a mim que a vocês, que decerto se enfadonham com meu parlapatório acerca de tudo – e do nada.

Para mim uma oportunidade singular de expor minha pregação exegeta do cotidiano. O que vejo, sinto, presencio… Sim, vocês são a turba enfastiada enquanto vocifero no púlpito.

Portanto não deixaria de externar minhas impressões das últimas duas semanas. Foram dias solenes, em comemoração ao glorioso 2 de Julho. Seguindo o protocolo, tudo começa com o desfile festivo [pouco interessante, sobretudo em ano de eleição], tem sequência com a VOLTA DA CABOCLA – essa sim, uma manifestação popular autêntica, mistura de galhofa e procissão cívica – uma das expressões mais originais do idioma baiano, e encerra-se com a LAVAGEM DE LABATUT a única festa de largo da Bahia por motivos históricos e não sagrado-profanos. Apesar do sagrado e do profano estarem lá CHANCELANDO a galhardia.

Esta tríade festiva arremata de forma definitiva o pathos da baianidade. Primeiro porque comemoramos a Independência da Bahia (?) que não é, e nunca foi, independente do Brasil. Na verdade celebramos o fato da verdadeira independência ter se conflagrado aqui, e não naquele grito muxoxo em beira de riacho e sem tiro de mosquetão. Acho que a história do Brasil começa errada por aí, quando um acordo permite que se conquiste autonomia sem trocar de comando. PORRA D. João, eu preferia que um aventureiro tivesse lançado mão!  Mas na guerra daqui tivemos mártires, heróis do povo, ajuda sobrenatural e casos insólitos. Uma mitologia mais rica, que dá autenticidade ao conflito mesmo sem rendição dos derrotados e com uma fuga patética dos portugueses.

Celebramos uma data nacional como se fosse nossa, enquanto paulistas e gaúchos comemoram rebeliões separatistas que deram errado com orgulho federativo. Totalmente coerente. A Bahia transcende o Brasil. Não dá pra separar, é um pedaço que não se arranca.

A volta da cabocla é um êxtase atemporal, onde as imagens do caboclo e da cabocla são carregadas de volta a Lapinha pelo povo, com direito a bloco, fanfarra, numa desordem jubilosa que nos é bastante peculiar. Não há aquela formalidade do desfile oficial, nem os séquitos que acompanham os próceres da província. E tem um significado metafórico poderoso. Quem nunca ouviu “espere a VOLTA DA CABOCLA” não sabe a importância de comedir as ações antes de retornar ao panteão 2 de Julho.

E a tríade só poderia ser encerrada com uma grande festa de largo. E em Pirajá, a mais importante das batalhas, a que mudou o rumo do conflito.  Como morador daquele arrabalde, conheço bem o significado do festejo para o bairro. Sim, o termo BATALHA ainda é justificado nos tempos atuais – no sentido denotativo mesmo – o que não esmorece a alegria da festividade, incorporada pelos elementos da terra como o samba do recôncavo, o desfile dos encourados de Pedrão, as barraquinhas vendendo batidas e quitutes não recomendados pela vigilância sanitária, as meninas brejeiras e seus trajes sumários. Tudo isso em homenagem a um mercenário francês que morreu na Bahia.

E ressuscita todo ano para sambar com o povo que libertou.

                                                                                                                                                                                                 Alex Rolim escreve aos sábados

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