Com vista para a torre mais alta de Notre Dame, a rue de Chantres não está em nenhum guia turístico. Mas se chove e é noite, ela vale a visita: torna-se um cenário ideal para crimes de ficção.

A vocação detetivesca de Paris não está nas ruas apenas (e há várias como a de Chantres). Existe uma “biblioteca de literaturas policiais” aqui. E, claro, existem os cinemas.

Tantos que é possível ver, na mesma semana, Sherlock Holmes – Jogo de sombras e O espião que sabia demais. Que diferença.

O ótimo filme de Tomas Alfredson é de certo modo uma manifestação contra o 3D. Porque no “cinema 3D” as coisas vêm até nos, enquanto que o cinema (não vou dizer ”2D”) evoluiu para nos incluir no meio das coisas. Mentalmente, e não fisicamente.

O espião em questão é Smiley (Gary Oldman), um agente secreto inglês que faz parte do Circus, braço governamental voltado para a alta espionagem. Estamos na década de 1970.

Smiley vê o mundo passar em torno dele e isso já conta muito no filme. É um mundo de aparências profundas, em que a superfície esconde e diz ao mesmo tempo. Alfredson acredita no que filma tanto quanto Smiley desconfia do que vê. Donde uma presença quase física das cenas, donde uma densidade algo rara das situações.

Mais importante ainda é notar que, enquanto Smiley percorre o mundo com os olhos, também o mundo o percorre, impacta e atravessa. Nesse sentido O espião que sabia demais é um filme sobre o desejo e as consequências de conhecer a verdade. E o tempo que Alfredson da às coisas (do exercício matinal de Smiley a um interrogatório brutal) é que nos projeta nesse universo duvidoso.

Quanto ao filme de Guy Ritchie, sua façanha é fazer de um personagem literário um não-personagem cinematográfico. Porque seu Sherlock Holmes não tem personalidade, ele é menos um individuo e mais um repositório de clichês do cinema de marketing.

Seu Holmes é bonito (Downey Jr.), em forma (Downey Jr. sem camisa), cômico (Downey Jr. vestido de mulher em cima de Watson), sedutor, faixa preta em doze artes marciais, inteligentíssimo e sem problemas de dinheiro. Ele é, enfim, a soma de todos os desejos imediatos do suposto espectador.

O que o rodeia não é mais complexo: seu opositor, Professor Moriarty, é igualmente infalível. Seu parceiro, Dr. Watson, que nos livros é um homem ordinário e que partilha da interrogação coletiva diante dos mistérios que Holmes resolve, aqui resolve com ele os mistérios. Alias, o Watson de Guy Pierce tem todas as qualidades de Holmes, mas em menor nível. Ele tem até um oponente duro: o parceiro de Moriarty é um ex-militar, um dos melhores “snipers” de sua época.

A dupla, portanto, é feita para seduzir o publico masculino de vinte e poucos anos que é alvo da franquia (a esse respeito, recomendo o artigo de Mark Harris na GQ). Tudo o que esta fora dela interessa menos. A começar pelas mulheres, que só estão no filme para: 1) serem salvas; 2) ouvirem explicações; 3) cumprir as decisões dos homens.

E a terminar pelos ciganos, aliás esta uma curiosa obsessão de Ritchie. Não é a primeira vez ele faz um retrato caricato e estereotipado deste povo (ele também dirigiu Snatch – Porcos e diamantes).

Talvez a grande diferença entre Smiley e Holmes seja sua relação com a verdade. Para o primeiro, ela é sempre incompleta, possivelmente inverídica e provavelmente perigosa. Para o segundo, é uma questão de tempo: o tempo do filme acabar.

Mas tudo isso é pura especulação: achei Sherlock Holmes tão ruim, mas tão ruim que sai do filme faltando, sei lá, 30 minutos para o final.

Diego Damasceno escreve às terças

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