Platos era um cachorro que passou por mim.

Platos é como na Alemanha se chama Platão. Ouvi esse nome da boca da velha que segurava Platos pela coleira e associei.

Não o cachorro às idéias de Platão. Apenas o nome à figura.

Pois nem poderia: de Platão conheço o vulto e a lenda, a lenda de que ele teria (d)escrito o mito da caverna.

Nela viviam alguns homens, que um sopro de memória me avisa que eram três.

Eles vivam olhando sombras, nas paredes, e tudo se resumia a isso.

Um dia um dos homens sai, vê o mundo e volta para contar. Estupefatos, indignados e enfim colerizados, os homens assassinam o mensageiro. Vira demais.

Na historia que eu criei, ha um quarto personagem: um cão.

Esse cão tinha comida, carinho e calor aos pés dos homens. Não pedia muito mais do que isso.

Não poderia dizer que era preso: sua liberdade era enorme, dada a parcela de mundo que ele conhecia.

No dia da luta o cão tudo assistiu e ouviu e pouco entendeu. Dos motivos, digo: porque sobre os homens ele logo compreendeu até onde eram capazes de ir.

Então calou-se.

Assim o cão chegou ao ano de 2011, em Paris.

Desde a caverna, ele viu muito e nunca esqueceu, e sua cabeça foi o que o manteve são e o salvou da tristeza e do encolhimento.

Pois na cabeça do cão ficaram as possibilidades deste mundo vasto que ele viu. E ele viu tanto das coisas de gente, pois sempre viveu entre gente, e ouviu tanto as gentes falarem o que pensam no fundo, pois por ser cão tomavam-no por incapaz de compreender, que ficou aliviado por ser cão. Pois como cão poderia: farejar, brincar, dormir, correr, acompanhar, ver e ouvir. Todas as formas do descobrir.

Por isso fiquei meio triste, meio puto, quando vi aquela velhinha meio triste, meio puta, puxando forte Platos pela coleira como se fosse sua dona.

Mas um dia quando eu me for e todos se forem, o mundo sobrará para Platos descobrir, e ele sabe disso, e por isso ainda espera e obedece, sem reclamar.

Diego Damasceno escreve às terças

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