O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto
não enxerga mesmo muito bem

(Caetano Veloso)

A sua mão, a minha ponte, meu velho, meu amor. Desgastadas todas as arestas do tempo, sufoco o meu clarão de alma pra poder dizer que só enxergo com o coração. Que suplico todas as noites pra que venha o dia – por causa do calor e não do claro, já que não mais vejo diferença. Fui comida pelas horas, mas não me deixei engolir por este gosto travoso de final de vida. Sabe o quê? Porque só me tornaria em desespero se não te tivesse por perto, meu velho, meu amor. Quem se encarregou de molhar as plantas hoje, de avaliar o clima, de acarinhar a terra? Ah, dos netos aquele é o que mais sabe regar. Já reparou como revolve a terra com destreza? Reparava, eu reparava, agora brinco de sombra e luz na minha memória, um recanto de coisas perdidas, achadas, reperdidas, reachadas, como aquele nosso ponto de eterno retorno, o filho que perdemos. Ele foi, sim, mas não me sai do coração, minhas vistas. Você está a quanto de distância, meu velho? Chegue mais aqui, retire esse abismo de minha frente, que eu cansei de ter medo de altura. Vamos, me dê a mão, sentencie a minha vitória. Suplante minha derrota para a idade e exagere o meu amor porque de tudo isso aqui, meu velho, só vai ficar o cheiro vívido do que nós podemos fazer um ao outro, no amor, na dor, na existência, o que há de ser superior, não é? Sim, eu gostaria que você pousasse a mão sobre o meu olho esquerdo, depois sobre o direito. Sabe que assim eu sinto um correr quente de sangue bombeado pra minha cara? Ela está corada? Vê, vê como você insufla o que ainda há de vida em mim! O que dirá aquele me receber no céu quando a cegueira tomar todo o meu corpo? Sim, porque morrer é quando o corpo fica cego. Que lindo você dizer isso, mas eu não sou anjo, não senhor. Eu sou de alfinete quando tem que ser, mas sou manta bem costurada pra acariciar, brotar carinho. Quero, quero o chá, sim. Você me serve? De quando em vez sinto o meus ossos das costas doerem, as articulações fazerem barulhos, a cabeça me trair, mas nada me agonia tanto quanto querer lembrar todos os detalhes do seu rosto e não conseguir. É quando penso que não vale mais a pena, meu velho, meu amor. Mas, sabe….é minha vez. Coloca seu rosto perto do meu que eu vou cobrir toda a sua extensão com a minha mão, tateando, assim, pare de rir. Agora ria. Agora eu beijo. Pronto, seu riso é meu, minha vida é sua, é lindo, e vai durar.

Carmezim escreve às quartas

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